The Project Gutenberg EBook of O Mysterio da Estrada de Cintra, by José Maria Eça de Queiroz and Ramalho Ortigão This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org Title: O Mysterio da Estrada de Cintra Cartas ao Diário de Noticias, terceira edição Author: José Maria Eça de Queiroz Ramalho Ortigão Release Date: February 12, 2007 [EBook #20574] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA *** Produced by Pedro Saborano (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) O Mysterio da Estrada de Cintra COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA EÇA DE QUEIROZ E RAMALHO ORTIGÃO O Mysterio da Estrada de Cintra Cartas ao _Diario de Noticias_ Terceira Edição emendada e precedida d'um Prefacio LISBOA Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor 50--RUA AUGUSTA--54 MDCCCXCIV LISBOA TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA 11--Apostolos--1.^o +PREFACIO DA 2^a EDIÇÃO+ CARTA AO EDITOR D'O _Mysterio da Estrada de Cintra_ Ha quatorze annos, n'uma noite de verão no Passeio Publico, em frente de duas chavenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em torno de nós cabeceava de somno ao som de um soluçante _pot-pourri_ dos _Dois Foscaris_, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo a berros, n'um romance tremendo, businado á baixa das alturas do _Diario de Noticias_. Para esse fim, sem plano, sem methodo, sem escola, sem documentos, sem estylo, recolhidos á simples «torre de crystal da Imaginação», desfechámos a improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa, cada um de nós com com uma resma de papel, a sua alegria e a sua audacia. Parece que Lisboa effectivamente despertou, pella sympathia ou pela curiosidade, pois que tendo lido na larga tiragem do _Diario de Noticias_ o _Mysterio da Estrada de Cintra_, o comprou ainda n'uma edição em livro; e hoje manda-nos V. as provas de uma terceira edição, perguntando-nos o que pensamos da obra escripta n'esses velhos tempos, que recordamos com saudade... Havia já então terminado o feliz reinado do senhor D. João VI. Fallecera o sympathico Garção, Tolentino o jocundo, e o sempre chorado Quita. Além do Passeio Publico, já n'essa epoca evacuado como o resto do paiz pelas tropas de Junot, encarregava-se tambem de fallar ás imaginações o sr. Octave Feuillet. O nome de Flaubert não era familiar aos folhetinistas. Ponson du Terrail trovejava no Sinai dos pequenos jornaes e das bibliothecas economicas. O sr. Jules Claretie publicava um livro intitulado... (ninguem hoje se lembra do titulo) do qual diziam commovidamente os criticos:--_Eis ahi uma obra que ha de ficar!_... Nós, emfim, eramos novos. O que pensamos hoje do romance que escrevemos ha quatorze annos?... Pensamos simplesmente--louvores a Deus!--que elle é execravel; e nenhum de nós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu peor inimigo, um livro egual. Porque n'elle ha um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e quasi tudo quanto um critico lhe deveria tirar. Poupemol-o--para o não aggravar fazendo-o em tres volumes--á enumeração de todas as suas deformidades! Corramos um veu discreto sobre os seus mascarados de diversas alturas, sobre os seus medicos mysteriosos, sobre os seus louros capitães inglezes, sobre as suas condessas fataes, sobre os seus tigres, sobre os seus elephantes, sobre os seus hiates em que se arvoram, como pavilhões do ideal, lenços brancos de cambraia e renda, sobre os seus sinistros copos d'opio, sobre os seus cadaveres elegantes, sobre as suas _toilettes_ romanticas, sobre os seus cavallos esporeados por cavalleiros de capas alvadias desapparecendo envoltos no pó das phantasticas aventuras pella Porcalhota fóra!... Todas estas cousas, aliás sympathicas, commoventes por vezes, sempre sinceras, desgostam todavia velhos escriptores, que ha muito desviaram os seus olhos das perspectivas enevoadas da sentimentalidade, para estudarem pacientemente e humildemente as claras realidades da sua rua. Como permittimos pois que se republique um livro que sendo todo d'imaginação, scismando e não observado, desmente toda a campanha que temos feito pella arte de analyse e de certeza objectiva? Consentimol-o porque entendemos que nenhum trabalhador deve parecer envergonhar-se do ser trabalho. Conta-se que Murat, sendo rei de Napoles, mandara pendurar na sala do throno o seu antigo chicote de postilhão, e muitas vezes, apontando para o sceptro mostrava depois o açoite, gostando de repetir: _Comecei por ali_. Esta gloriosa historia confirma o nosso parecer, sem com isto querermos dizer que ella se applique ás nossa pessoas. Como throno temos ainda a mesma velha cadeira em que escreviamos ha quinze annos; não temos docel que nos cubra; e as nossas cabeças, que embranquecem, não se cingem por emquanto de corôa alguma, nem de louros, nem de Napoles. Para nossa modesta satisfação basta-nos não ter cessado de trabalhar um só dia desde aquelle em que datámos este livro até o instante em que elle nos reapparece inesperadamente na sua terceira edição, com um petulante arzinho de triumpho que, á fé de Deus, não lhe vae mal! Então, como agora, escreviamos honestamente, isto é, o melhor que podiamos: d'esse amor da perfeição, que é a honradez dos artistas, veio talvez a sympathia do publico ao livro da nossa mocidade. Ha mais duas razões, para auctorizar esta reedição. A primeira é que a publicação d'este livro, fóra de todos os moldes até o seu tempo consagrados, pode conter, para uma geração que precisa de a receber, uma util lição de independencia. A mocidade que nos succedeu, em vez de ser inventiva, audaz, revolucionaria, destruidosa d'idolos, parece-nos servil, imitadora, copista curvada de mais deante dos mestres. Os novos escriptores não avançam um pé que não pousem na pégada que deixaram outros. Esta pusilanimidade torna todas as obras tropegas, dá-lhes uma expressão estafada; e a nós, que partimos, a geração que chega faz-nos o effeito de sahir velha do berço e de entrar na arte de muletas. Os documentos das nossas primeiras loucuras de coração queimámol-os ha muito, os das nossas extravagancias de espirito desejamos que fiquem. Aos vinte annos é preciso que alguem seja estroina, nem sempre talvez para que o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite, Para ser ponderado, correcto e immovel ha tempo de sobra na velhice. Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de resistencia ás correntes da tradição, é indispensavel para a revivescencia da invenção e do poder criativo, e para a originalidade artistica. Ai das litteraturas em que não ha mocidade! Como os velhos que atravessaram a vida sem o sobressalto de uma aventura, não haverá n'ellas que lembrar. Além de que, para os que na edade madura foram arrancados pelo dever ás facilidades da improvisação e encontram n'esta região dura das coisas exactas, entristecedora e mesquinha, onde, em logar do esplendor dos heroismos e da belleza das paixões, só ha a pequenez dos caracteres e a miseria dos sentimenos, seria dôce e reconfortante ouvir de longe a longe, nas manhãs de sol, ao voltar da primavera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a doirada abelha da phantasia. A ultima razão que nos leva a não repudiar este livro, é que elle é ainda o testemunho da intima confraternidade de dois antigos homens de lettras, resistindo a vinte annos de provação nos contactos de uma sociedade que por todos os lados se dissolve. E, se isto não é um triumpho para o nosso espírito, é para o nosso coração uma suave alegria. Lisboa, 14 de dezembro de 1881 De V. Antigos amigos Eça de Queiroz Ramalho Ortigão +O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA+ +EXPOSIÇÃO DO DOUTOR*** + I Sr. redactor do _Diario de Noticias_ Venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinario em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substancia, pelo menos, do que vou expôr. Os successos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mysterio, envolve-os uma tal apparencia de crime que a publicidade do que se passou por mim torna-se importantissima como chave unica para a desencerração de um drama que supponho terrivel com quanto não conheça d'elle senão um só acto e ignore inteiramente quaes foram as scenas precedentes e quaes tenham de ser as ultimas. Ha tres dias que eu vinha dos suburbios de Cintra em companhia de F..., um amigo meu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo. Montavamos dois cavallos que F... tem na sua quinta e que deviam ser reconduzidos a Cintra por um criado que viera na vespera para Lisboa. Era ao fim da tarde quando atravessámos a charneca. A mellancolia do logar e da hora tinha-se-nos communicado, e vinhamos silenciosos, abstrahidos na paizagem, caminhando a passo. A cerca de talvez de meia distancia do caminho entre S. Pedro e o Cacem, n'um ponto a que não sei o nome, porque tenho transitado pouco n'aquella estrada, sitio deserto como todo o caminho através da charneca, estava parada uma carruagem. Era um _coupé_ pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha côr de castanha. O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos cavallos. Dois sujeitos achavam-se curvados ao pé das rodas que ficavam para a parte da estrada por onde tinhamos de passar, e pareciam occupados em examinar attentamente o jogo da carruagem. Um quarto individuo, egualmente de costas para nós, estava perto do vallado do outro lado do caminho, procurando alguma cousa, talvez uma pedra para calçar o trem. É o resultado das sobrodas que tem a estrada, observou o meu amigo. Provavelmente o eixo partido ou alguma roda desembuxada. Passavamos a este tempo pelo meio dos tres vultos a que me referi, e F... tinha tido apenas tempo de concluir a phrase que proferira, quando o cavallo que eu montava deu repentinamente meia volta rapida, violenta, e caiu de chapa. O homem que estava junto do vallado, ao qual eu não dava attenção porque ia voltado a examinar o trem, determinara essa queda, colhendo repentinamente e com a maxima força as redeas que ficavam para o lado d'elle e impellindo ao mesmo tempo com um pontapé o flanco do animal para o lado oposto. O cavallo, que era um poldro de pouca força e mal manejado, escorregou das pernas e tombou ao dar a volta rapida e precipitada a que o tinham constrangido. O desconhecido fez levantar o cavallo segurando-lhe as redeas, e, ajudando-me a erguer, indagava com interesse se eu teria molestado a perna que ficára debaixo do cavallo. Este individuo tinha na voz a entoação especial dos homens bem educados. A mão que me offereceu era delicada. O rosto tinha-o coberto com uma mascara de setim preto. Entrelembro-me de que trazia um pequeno fumo no chapeu. Era um homem agil e extremamente forte, segundo denota o modo como fez cair o cavallo. Ergui-me alvoroçadamente e, antes de ter tido ocasião de dizer uma palavra, vi que, ao tempo da minha queda, se travara lucta entre o meu companheiro e os outros dois individuos que fingiam examinar o trem e que tinham a cara coberta como aquelle de que já fallei. Puro Ponson du Terrail! dirá o sr. redactor. Evidentemente. Parece que a vida, mesmo no caminho de Cintra, pode às vezes ter o capricho de ser mais romanesca do que pede a verosimilhança artistica. Mas eu não faço arte, narro factos unicamente. F..., vendo o seu cavallo subitamente seguro pellas cambas do freio, tinha obrigado a largal-o um dos desconhecidos, em cuja cabeça descarregára uma pancada com o cabo do chicote, o qual o outro mascarado conseguira logo depois arrancar-lhe da mão. Nenhum de nós trazia armas. O meu amigo tinha no entanto tirado da algibeira a chave de uma porta da casa de Cintra, e esporeava o cavallo estirando-se-lhe no pescoço e procurando alcançar a cabeça d'aquelle que o tinha seguro. O mascarado, porém, que continuava a segurar em uma das mãos o freio do cavallo empinado, apontou com a outra um rewolver á cabeça do meu amigo e disse-lhe com serenidade: --Menos furia! menos furia! O que levára com o chicote na cabeça e ficára por um momento encostado á portinhola do trem, visivelmente atordoado mas não ferido, porque o cabo era de baleia e tinha por castão uma simples guarnição feita com uma trança de clina, havia já a este tempo levantado do chão e posto na cabeça o chapeu que lhe caira. A este tempo o que me derribara o cavallo e me ajudara a levantar tinha-me deixado ver um par de pequeninas pistolas de coronhas de prata, d'aquellas a que chamam em França _coups de poing_ e que varam uma porta a trinta passos de distancia. Depois do que, me offereceu delicadamente o braço, dizendo-me com afabilidade: --Parece-me mais commodo acceitar um logar que lhe offereço na carruagem do que montar outra vez no cavallo ou ter de arrastar a pé d'aqui á pharmacia da Porcalhota a sua perna magoada. Não sou dos que se amedrontam mais promptamente com a ameaça feita com armas. Sei que ha um abysmo entre prometter um tiro e desfechal-o. Eu movia bem a perna trilhada, o meu amigo estava montado em um cavallo possante; somos ambos robustos; poderiamos talvez resistir por dez minutos, ou por um quarto de hora, e durante esse tempo nada mais provavel, em estrada tão frequentada como a de Cintra n'esta quadra, do que apparecerem passageiros que nos prestassem auxílio. Todavia confesso que me sentia attrahido para o imprevisto de uma tão extranha aventura. Nenhum caso anterior, nenhuma circumstancia da nossa vida nos permittia suspeitar que alguem podesse ter interesse em exercer comnosco pressão ou violencia alguma. Sem eu bem poder a esse tempo explicar porquê, não me parecia tambem que as pessoas que nos rodeavam projectassem um roubo, menos ainda um homicidio. Não tendo tido tempo de observar miudamente a cada um, e tendo-lhes ouvido apenas algumas palavras fugitivas, figuravam-se-me pessoas de bom mundo. Agora que de espírito socegado penso no acontecido, vejo que a minha conjectura se baseava em varias circumstancias dispersas, nas quaes, ainda que de relance, eu attentara, mesmo sem proposito de analyse. Lembro-me, por exemplo, que era de setim alvadio o forro do chapeu do que levara a pancada na cabeça. O que apontára o rewolver a F... trazia calçada uma luva côr de chumbo apertada com dois botões. O que me ajudára a levantar tinha os pés finos e botas envernizadas; as calças, de casimira côr de avelã, eram muito justas e de presilhas. Tinha esporas. Não obstante a disposição em que me achava de ceder da lucta e de entrar no trem, perguntei em allemão ao meu amigo se elle era de opinião que resistissemos ou que nos rendessemos. --Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos é precioso! disse gravemente um dos desconhecidos. Por quem são, acompanhem-nos! Um dia saberão por que motivo lhes sahimos ao caminho mascarados. Damos-lhes a nossa palavra que ámanhã estarão nas suas casas, em Lisboa. Os cavallos ficarão em Cintra d'aqui a duas horas. Depois de uma breve reluctancia, que eu contribuí para desvanecer, o meu companheiro apeou-se e entrou no _coupé_. Eu segui-o. Cederam-nos os melhores logares. O homem que se achava em frente da parelha segurou os nossos cavallos; o que fizera cair o poldro subiu para a almofada e pegou nas guias; ou outros dois entraram comnosco e sentaram-se nos logares fronteiros aos nossos. Fecharam-se em seguida os stores de madeira dos postigos e correu-se uma cortina de seda verde que cobria por dentro os vidros fronteiros da carruagem. No momento de partirmos, o que ia guiar bateu na vidraça e pediu um charuto. Passaram-lhe para fóra uma charuteira de palha de Java. Pella fresta por onde recebeu os charutos lançou para dentro do trem a mascara que tinha no rosto, e partimos a galope. Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de Lisboa, um omnibus, talvez uma sege. Se me não illudi, a pessoa ou pessoas que vinham no trem a que me refiro terão visto os nossos cavallos, um dos quaes é russo e o outro castanho, e poderão talvez dar noticia da carruagem em que íamos e da pessoa que nos servia de cocheiro. O coupé era, como já disse, verde e preto. Os stores, de mogno polido, tinham no alto quatro fendas estreitas e oblongas, dispostas em cruz. Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por contar a horas de expedir ainda hoje esta carta pela posta interna. Continuarei. Direi então, se o não suspeitou já, o motivo porque lhe occulto o meu nome e o nome do meu amigo. II Julho, 24 de 1870--Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada integralmente por v. no logar destinado ao folhetim do seu periodico. Em vista da collocação dada ao meu escripto procurarei nas cartas que houver de lhe dirigir não ultrapassar os limites demarcados a esta secção do jornal. Por esquecimento não datei a carta antecedente, ficando assim duvidoso qual o dia em que fomos surprehendidos na estrada de Cintra. Foi quarta feira, 20 do corrente mez de julho. Passo de prompto a contar-lhe o que se passou no trem, especificando minuciosamente todos os pormenores e tentando reconstruir o dialogo que travámos, tanto quanto me seja possivel com as mesmas palavras que n'elle se empregaram. A carruagem partiu na direcção de Cintra. Presumo porém que deu na estrada algumas voltas, muito largas e bem dadas porque se não presentiram pela intercadencia da velocidade no passo dos cavallos. Levaram-me a suppol-o, em primeiro logar as differenças de declive no nivel do terreno, com quanto estivessemos rodando sempre em uma estrada macadamisada e lisa; em segundo logar umas leves alterações na quantidade de luz que havia dentro do _coupé_ coada pela cortina de seda verde, o que me indicava que o trem passava por encontradas exposições com rellação ao sol que se escondia no horisonte. Havia evidentemente o designio de nos desorientar no rumo definitivo que tomassemos. É certo que, dois minutos depois de termos principiado a andar, me seria absolutamente impossivel decidir se ia de Lisboa para Cintra ou se vinha de Cintra para Lisboa. Na carruagem havia uma claridade bassa e tenue, que todavia nos permittia distinguir os objectos. Pude ver as horas no meu relogio. Eram sete e um quarto. O desconhecido que ia defronte de mim examinou tambem as horas. O relogio que elle não introduziu bem na algibeira do collete e que um momento depois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente, era um relogio singular que se não confunde facilmente e que não deixará de ser reconhecido, depois da noticia que dou d'elle, pellas pessoas que alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado opposto ao mostrador era de esmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um escudo de armas de ouro encobrado e polido. Havia poucos momentos que caminhavamos quando o individuo sentado defronte de F..., o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o acompanhassemos, nos disse: --Eu julgo inutil asseverar-lhes que devem tranquilisar-se inteiramente em quanto á segurança das suas pessoas... --Está visto que sim, respondeu o meu amigo; nós estamos perfeitamente socegados a todos os respeitos. Espero que nos façam a justiça de acreditar que nos não têem coactos pelo medo. Nenhum de nós é tão creança que se apavore com o aspecto das suas mascaras negras ou das suas armas de fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos certificar de que não querem fazer-nos mal: nós devemos pela nossa parte annunciar-lhes que desde o momento em que a sua companhia principiasse a tornar-se-nos desagradavel, nada nos seria mais facil do que arrancar-lhes as mascaras, arrombar os stores, convidal-os perante o primeiro trem que passasse por nós a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxal-os em seguida aos cuidados policiaes do regedor da primeira parochia que atravessassemos. Parece-me portanto justo que principiemos por prestar o devido culto aos sentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos. D'outro modo ficariamos todos grotescos: os senhores terriveis e nós assustados. Com quanto estas cousas fossem ditas por F... com um ar de bondade risonha, o nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao ouvil-o. Movia convulsivamente uma perna, firmando o cotovello n'um joelho, pousando a barba nos dedos, fitando de perto o meu amigo. Depois, reclinando-se para traz e como se mudasse de resolução: --No fim de contas, a verdade é que tem razão e talvez eu fizesse e dissesse o mesmo no seu logar. E, tendo meditado um momento, continuou: --Que diriam porém os senhores se eu lhes provasse que esta mascara em que querem ver apenas um symptoma burlesco é em vez d'isso a confirmação da seriedade do caso que nos trouxe aqui?... Queiram imaginar por um momento um d'esses romances como ha muitos: Uma senhora casada, por exemplo, cujo marido viaja ha um anno. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa, está gravida. Que deliberação ha de tomar? Houve um silencio. Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude d'aquelle problema e respondi: --Enviar ao marido uma escriptura de separação em regra. Depois, se é rica, ir com o amante para a America ou para a Suissa; se é porbre, comprar uma machina de costura e trabalhar para fóra n'uma agua furtada. É o destino para as pobres e para as ricas. De resto, em toda a parte se morre depressa n'essas condições, n'um _cottage_ á beira do lago Genebra ou n'um quarto de oito tostões ao mez na rua dos Vinagres. Morre-se egualmente, de tisica ou de tedio, no esfalfamento do trabalho ou no enjôo do idyllio. --E o filho? --O filho, desde que está fóra da familia e fóra da lei, é um desgraçado cujo infortunio provém em grande parte da sociedade que ainda não soube definir a responsabilidade do pae clandestino. Se os paes fazem como a legislação, e mandam buscar gente á estrada de Cintra para perguntar o que se ha de fazer, o melhor para o filho é deital-o á roda. --O doutor discorre muito bem como philosopho distincto. Como puro medico, esquece-lhe talvez que na conjunctura de que se trata, antes de deitar o filho á roda ha uma pequena formalidade a cumprir, que é deital-o ao mundo. --Isso é com os especialistas. Creio que não é n'essa qualidade que estou aqui. --Engana-se. É precisamente como medico, é n'essa qualidade que aqui está e é por esse titulo que viemos busca-lo de surpresa á estrada de Cintra e o levamos a occultas a prestar auxílio a uma pessoa que precisa d'elle. --Mas eu não faço clinica. --É o mesmo. Não exerce essa profissão; tanto melhor para o nosso caso: não prejudica os seus doentes abandonando-os por algumas horas para nos seguir n'esta aventura. Mas é formado em Paris e publicou mesmo uma these de cirurgia que despertou a attenção e mereceu o elogio da faculdade. Queira fazer de conta que vae assistir a um parto. O meu amigo F... poz-se a rir e observou: --Mas eu que não tenho curso medico nem these alguma de que me accuse na minha vida, não quererão dizer-me o que vou fazer? --Quer saber o motivo porque se encontra aqui?... Eu lh'o digo. N'este momento porém a carruagem parou repentinamente e os nossos companheiros sobresaltados ergueram-se. III Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir successivamente as duas lanternas e raspar um phosphoro na roda. Senti depois estalir a mola que comprime a portinha que se fecha depois de accender as velas, e rangerem nos anneis dos cachimbos os pés das lanternas como se as estivessem endireitando. Não comprehendí logo a razão porque nos tivessemos detido para similhante fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho. Isto porém explica-se por um requinte de precaução. A pessoa que nos servia de cocheiro não quereria parar em logar onde houvesse gente. Se tivessemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a accender-se e que nós veriamos atravez da cortina ou das fendas dos stores, poderiam dar-nos alguma idéa do sitio em que nos achassemos. Por esta fórma esse meio de investigação desapparecia. Ao passarmos entre predios ou muros mais altos, a projecção da luz forte das lanternas sobre as paredes e a reflexão d'essa claridade para dentro do trem impossibilitava-nos de distinguir se atravessavamos uma aldeia ou uma rua illuminada. Logo que a carruagem começou a rodar depois de accezas as lanternas, aquelle dos nossos companheiros que promettera explicar a F... a razão porque elle nos acompanhava, prosseguiu: --O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no unicamente n'este mundo tres amigos meus, amigos intimos, companheiros de infancia, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um constantemente prompto a prestar aos outros os derradeiros sacrificios que póde impôr a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um medico. Era mister obtel-o e era ao mesmo tempo indispensavel que não passasse a outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascerá provavelmente esta noite ou ámanhã pela manhã; não devendo saber ninguem quem é sua mãe, não devendo sequer por algum indicio vir a suspeitar um dia quem ella seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem falla, e qual é a casa em que vae entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto uma mascara; eis o motivo porque os senhores nos hão de permittir que continuemos a ter cerrada esta carruagem, e que lhes vendemos os olhos antes de os apearmos defronte do predio a que vão subir. Agora comprehende, continuou elle dirigindo-se a F..., a razão por que nos acompanha. Era-nos impossivel evitar que o senhor viesse hoje de Cintra com o seu amigo, era-nos impossivel adiar esta visita, e era-nos impossivel tambem deixal-o no ponto da estrada em que tomámos o doutor. O senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos. --A lembrança, notei eu, é engenhosa mas não lisongeira para a minha discrição. --A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não pertence. F... achava-se inteiramente d'accordo com esta maneira de ver, e disse-o elogiando o espírito da aventura romanesca dos mascarados. As palavras de F... accentuadas com sinceridade e com affecto, pareceu-me que perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e surprehendia desagradavelmente esse córte imprevisto. Elle, que tinha a replica prompta e a palavra facil, não achou que retorquir á confiança com que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um silencio que devia pezar ás suas tendencias expansivas e discursadoras. É verdade que pouco depois d'este dialogo o trem deixou a estrada de macadam em que até ahi rodara e entrou n'um caminho vicinal ou n'um atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrepito dos stores embatendo nos caixilhos mal permittiriam conversar. Tornámos por fim a entrar n'uma estrada lisa. A carruagem parou ainda uma segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo: --Lá vou! Voltou pouco depois, e eu ouvi alguem que dizia: --Vão com raparigas para Lisboa. O trem prosseguiu. Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola? Entender-se-hia com os meus companheiros a phrase que eu ouvira? Não posso dizel-o com certeza. A carruagem entrou logo depois n'um pavimento lageado e d'ahi a dois ou tres minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse: --Chegámos. O mascardo que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma commoção: --Tenham paciencia! perdôem-m'o... Assim é preciso! F... approximou o rosto, e elle vendou-lhe os olhos. Eu fui egualmente vendado pelo que estava em frente de mim. Apeámo-nos em seguida e entrámos n'um corredor conduzidos pela mão dos nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo por que nos encontrámos e démos passagem a alguem que sahia. Quem quer que era disse: --Levo o trem? A voz do que nos guiara respondeu: --Leva. Demorámo-nos um momento. A porta por onde haviamos entrado foi fechada á chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo: --Vamos! Démos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos á direita e entrámos na escada. Era de madeira, ingreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superficie e esbatidos e arredondados nas saliencias primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar humido e impregnado das exhalações interiores dos predios deshabitados. Subimos oito ou dez degraus, tomámos á esquerda n'um patamar, subimos ainda outros degraus e parámos n'um primeiro andar. Ninguem tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lugubre n'este silencio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza. Ouvi então a nossa carruagem que se affastava, e senti uma suppressão, uma especie de sobresalto pueril. Em seguida rangeu uma fechadura e transpozemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada á chave depois de havermos entrado. --Podem tirar os lenços, disse-me um dos nossos companheiros. Descobri os olhos. Era noite. Um dos mascarados raspou um phosphoro, accendeu cinco velas n'uma serpentina de bronze, pegou na serpentina, approximou-se de um movel que estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta. Não pude conter a commoção que senti, e soltei um grito de horror. O que eu tinha diante de mim era o cadaver de um homem. IV Escrevo-lhe hoje fatigado, e nervoso. Todo este obscuro negocio em que me acho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tensão de espírito em que estou para comprehender a secreta verdade d'esta aventura, os habitos da minha vida repousada subitamente exaltados,--tudo isto me dá um estado de irritação morbida que me aniquilla. Logo que vi o cadaver perguntei violentamente: --Que quer isto dizer, meus senhores? Um dos mascarados, o mais alto, respondeu: --Não ha tempo para explicações. Perdôem ter sido enganados! Pelo amor de Deus, doutor, veja esse homem. Quem tem? Está morto? Está adormecido com algum narcotico? Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente interrogativa que eu, dominado pelo imprevisto d'aquella situação, approximei-me do cadaver, e examinei-o. Estava deitado n'uma _chaise-longue_, com a cabeça pousada n'uma almofada, as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descançando no peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha signaes de congestão, nem vestigios de estrangulação. A expressão da physionomia não denotava soffrimento, contracção ou dôr. Os olhos cerrados frouxamente, eram como n'um somno leve. Estava frio e livido. Não quero aqui fazer a historia do que encontrei no cadaver. Seria embaraçar esta narração concisa com explicações scientificas. Mesmo sem exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a analyse ou a autopsia, pareceu-me que aquelle homem estava sob a influencia já mortal de um narcotico, que não era tempo de dominar. --Que bebeu elle? perguntei, com uma curiosidade exclusivamente medica. Não pensava então em crime nem na mysteriosa aventura que ali me prendia; queria só ter uma historia progressiva dos factos que tinham determinado a narcotisação. Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da _chaise-longue_ sobre uma cadeira de estofo. --Não sei, disse elle, talvez aquillo. O que havia no copo era evidentemente opio. --Este homem está morto, disse eu. --Morto! repetiu um d'elles, tremendo. Ergui as palpebras do cadaver, os olhos tinham uma dilatação fixa, horrivel. Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente: --Ignoro o motivo porque vim aqui; como medico d'um doente sou inutil; como testemunha posso ser perigoso. Um dos mascarados veiu para mim e com a voz insinuante, e grave: --Escute, crê em sua consciencia que esse homem esteja morto? --De certo. --E qual pensa que fosse a causa da morte? --O opio; mas creio que devem sabel-o melhor do que eu os que andam mascarados surprehendendo gente pela estrada de Cintra. Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que cortasse os embaraços da minha situação. --Perdão, disse um, e ha que tempo suppõe que esse homem esteja morto? Não respondi, puz o chapeu na cabeça e comecei a calçar as luvas. F... junto da janella batia o pé impaciente. Houve um silencio. Aquelle quarto pesado de estofos, o cadaver estendido com reflexos lividos na face, os vultos mascarados, o socego lugubre do logar, as luzes claras, tudo dava áquelle momento um aspecto profundamente sinistro. --Meus senhores, disse então lentamente um dos mascarados, o mais alto, o que tinha guiado a carruagem--comprehendem perfeitamente, que se nós tivessemos morto este homem sabiamos bem que um medico era inutil, e uma testemunha importuna! Desconfiavamos, é claro, que estava sob a acção de um narcotico, mas queriamos adquirir a certeza da morte. Por isso os trouxemos. A respeito do crime estamos tão ignorantes como os senhores. Se não entregamos este caso á policia, se cercámos de mysterio e de violencia a sua visita a esta casa, se lhes vendámos os olhos, é porque receavamos que as indagações que se podessem fazer, conduzissem a descobrir, como criminoso ou como cumplice, alguem que nós temos em nossa honra salvar; se lhes damos estas explicações... --Essas explicações são absurdas! gritou F. Aqui ha um crime; este homem está morto, os senhores, mascarados; esta casa parece solitaria, nós achamo-nos aqui violentados, e todas estas circumstancias teem um mysterio tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais leve acto, nem pela mais involuntaria assistencia, ser parte n'este negocio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquella porta. Com a violencia dos seus gestos, um dos mascarados riu. --Ah! os senhores escarnecem! gritou F... E arremessando-se violentamente contra a janella, ia fazer saltar os fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre elle, curvaram-n'o, arrastaram-n'o até uma poltrona, e deixaram-n'o cair, offegante, tremulo de desespero. Eu tinha ficado sentado e impassivel. --Meus senhores, observei, notem que emquanto o meu amigo protesta pela colera, eu protesto pelo tedio. E accendi um charuto. --Mas com os diabos! tomam-nos por assassinos! gritou um violentamente. Não se crê na honra, na palavra de um homem! Se vocês não tiram a mascara, tiro-a eu! É necessario que nos vejam! Não quero, nem escondido por um pedaço de cartão, passar por assassino!... Senhores! dou-lhes a minha palavra que ignoro quem matou este homem! E fez um gesto furioso. N'este movimento, a mascara desapertou-se, descahindo. Elle voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto. Foi um movimento instinctivo, irreflectido, de desesperação. Os outros cercaram-n'o, olhando rapidamente para F..., que tinha ficado impassivel. Um dos mascarados, que não tinha ainda falado, o que na carruagem viera defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio, com suspeita. Houve um longo silencio. Os mascarados, a um canto, fallavam baixo. Eu no emtanto examinava a sala. Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete molle, espesso, bom para correr com os pés nús. O estofo dos moveis era de seda vermelha com uma barra verde, unica e transversal, como têem na antiga heraldica os brasões dos bastardos. As cortinas das janellas pendiam em pregas amplas e suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tepido e penetrante, onde se sentia a verbena e o perfume de _marechala_. O homem que estava morto era moço, de perfil sympathico e fino, de bigode louro. Tinha o casaco e collete despidos, e o largo peitilho da camisa reluzia com botões de perolas; a calça era estreita, bem talhada, de uma côr clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda em grandes quadrados brancos e cinzentos. Pella physionomia, pela construcção, pelo corte e côr do cabello, aquelle homem parecia inglez. Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente corrido. Parecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo luxo, d'um aroma que andava no ar e uma sensação tépida que dão todos os logares onde ordinariamente se está, se falla e se vive, aquelle quarto não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira, umas luvas cahidas, alguma d'estas mil pequenas coisas confusas, que demonstram a vida e os seus incidentes triviaes. F..., tinha-se approximado de mim. --Conheceste aquelle a quem caiu a mascara? perguntei. --Não. Conheceste? --Tambem não. Ha um que ainda não fallou, que está sempre olhando para ti. Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista. Um dos mascarados approximou-se, perguntando: --Quanto tempo póde ficar o corpo assim n'esta _chaise-longue_? Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento colerico, mas conteve-se. N'este momento o mascarado mais alto, que tinha saido, entrara, dizendo para os outros: --Prompto!... Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pendula e os passos de F..., que passeiava agitado, com o sobrolho duro, torcendo o bigode. --Meus senhores, continuou voltando-se para nós o mascarado--damos-lhe a nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este successo. Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões, tudo o que quizerem. Imaginem que estão aqui pela violencia, pela corrupção, pela astucia, ou pela força da lei... como entenderem! O facto é que ficam até amanhã. O seu quarto--disse-me--é n'aquella alcova, e o seu--apontou para F.--lá dentro. Eu fico comsigo, doutor, n'este sofá. Um dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Ámanhã despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte á policia ou escrever para os jornaes. Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquillidade. Não respondemos. Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova. Eu passeava. N'uma das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto d'uma poltrona, uma coisa branca similhante a um lenço. Passei defronte da poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objecto caido. Era effectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter bordadas uma firma e uma corôa. N'este momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se a F... --Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é necessario vendar-lhe os olhos. F. tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu elle mesmo os olhos, e sairam. Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz sympathica e attrahente. Perguntou-me se queria jantar. Comquanto lhe respondesse negativamente, elle abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias. Bebi apenas um copo d'agua. Elle comeu. Lentamente, gradualmente, começámos a conversar quasi em amizade. Eu sou naturalmente expansivo, o silencio pesava-me. Elle era instruido, tinha viajado e tinha lido. De repente, pouco depois da uma hora da noite, sentimos na escada um andar leve e cauteloso, e logo alguem tocar na porta do quarto onde estavamos. O mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso. Erguemo-nos sobresaltados. O cadaver achava-se coberto. O mascarado apagou as luzes. Eu estava aterrado. O silencio era profundo; ouvia-se apenas o ruido das chaves que a pessoa que estava fóra ás escuras procurava introduzir na fechadura. Nós, immoveis, não respiravamos. Finalmente a porta abriu-se, alguem entrou, fechou-a, accendeu um phosphoro, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, immovel, com os braços estendidos. Ámanhã, mais socegado e claro de recordações, direi o que se seguiu. * * * * * P.S.--Uma circumstancia que póde esclarecer sobre a rua e o sitio da casa: De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra cantando o fado. Devia ser meia noite. O que cantava dizia esta quadra: Escrevi uma carta a Cupido A mandar-lhe perguntar Se um coração offendido... Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando, lerem esta carta, prestarão um notavel esclarecimento dizendo em que rua passavam, e defronte de que casa, quando cantaram aquellas rymas populares. V Hoje, mais socegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade, reconstruindo-o do modo mais nitido, nos dialogos e nos olhares, o que se seguiu á entrada imprevista d'aquella pessoa no quarto onde estava o morto. O homem tinha ficado estendido no chão, sem sentidos: molhámos-lhe a testa, demos-lhe a respirar vinagre de _toilette_. Voltou a si, e, ainda tremulo e pallido, o seu primeiro movimento instinctivo foi correr para a janella! O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e arremessou-o com violencia para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto. Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme: --Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, varo- lhe o coração! --Vá, vá, disse eu, breve! responda... Que quer? Que veio fazer aqui? Elle não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, repetia machinalmente: --Está perdido tudo! Está tudo perdido! --Falle, disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço, que veiu fazer aqui? Que é isto? como soube?... A sua agitação era extrema: luziam-lhe os olhos entre o setim negro da mascara. --Que veiu fazer aqui? repetiu agarrando-o pelos hombros e sacudindo-o como um vime. --Escute... disse o homem convulsivamente. Vinha saber... disseram-me... Não sei. Parece que já cá estava a policia... queria... saber a verdade, indagar quem o tinha assassinado... vinha tomar informações... --Sabe tudo! disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços. Eu estava surprehendido; aquelle homem conhecia o crime, sabia que havia ali um cadaver! Só elle o sabia, porque deviam ser de certo absolutamente ignorados aquelles successos lugubres. Por consequencia quem sabia onde estava o cadaver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao logar do assassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surprehendido, estava positivamente envolvido no crime... --Quem lhe deu a chave? perguntou o mascarado. O homem calou-se. --Quem lhe fallou n'isto? Calou-se. --Que vinha fazer, de noite, ás escondidas, a esta casa? Calou-se. --Mas como sabia d'este absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento nós?... E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptivel do expediente que ia tomar, accrescentou: -- ... nós e o senhor comissário. O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletot e examinou-lhe os bolsos. Encontrou um pequeno martello e um masso de pregos. --Para que era isto? --Trazia naturalmente isso, queria concertar não sei quê, em casa... um caixote... O mascarado tomou a luz, approximou-se do morto, e por um movimento rapido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a livida face do cadaver. --Conhece este homem? O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar, demorado e attento. Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistencia implacavel nos olhos d'elle, dominei-o, dísse-lhe baixo, apertando-lhe a mão: --Porque o matou? --Eu? gritou elle. Está doido! Era uma resposta clara, franca, natural, innocente. --Mas porque veiu aqui? observou o mascarado, como soube do crime? Como tinha a chave? Para que era este martello? Quem é o senhor? Ou dá explicações claras, ou d'aqui a uma hora está no segredo, e d'aqui a um mez nas galés. Chame os outros, disse elle para mim. --Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! gritou o desconhecido. Esperámos; mas retraindo a voz, e com uma intonação demorada, como quem dicta: --A verdade, prosseguiu, é esta: encontrei hoje de tarde um homem desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é destemido, vá a tal rua, n.º tantos... Eu tive um movimento avido, curioso, interrogador. Ia emfim saber onde estava! Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôz-lhe a mão aberta sobre a bocca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível: --Se diz onde estamos, mato-o. O homem fitou-nos: comprehendeu evidentemente que eu tambem estava ali, sem saber onde, por um mysterio, que os motivos da nossa presença eram tambem suspeitos, e que por consequencia não eramos empregados da policia. Esteve um momento calado e accrescentou: --Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem aqui? --Está preso, gritou o mascarado. Vá chamar os outros, doutor. É o assassino. --Esperem, esperem, gritou elle, não comprehendo! Quem são os senhores? Suppuz que eram da policia... São talvez... disfarçam para me surprehender! Eu não conheço aquelle homem, nunca o vi. Deixem-me sair... Que desgraça! --Este miseravel ha de fallar, elle tem o segredo! bradava o mascarado. Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentar a doçura, a astucia. Elle tinha serenado, fallava com intelligencia e com facilidade. Disse-me que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Vizeu. O mascarado escutava-nos, silencioso e attento. Eu fallando baixo com o homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Elle pedia-me _que o salvasse_, chamava-me seu _amigo_. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado pela imaginação. Era facil surprehender a verdade dos seus actos. Com um modo intimo, confidencial, fiz-lhe perguntas apparentemente sinceras e simples, mas cheias de traição e de analyse. Elle, com uma boa fé inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava. --Ora, disse-lhe eu, uma cousa me admira em tudo isto. --Qual? --É que não tivesse deixado signaes o arsenico... --Foi opio, interrompeu elle, com uma simplicidade infantil. Ergui-me de salto. Aquelle homem, se não era o assassino, conhecia profundamente todos os segredos do crime. --Sabe tudo, disse eu ao mascarado. --Foi elle, confirmou o mascarado convencido. Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples: --A comedia acabou, meu amigo, tire a sua mascara, apertemo-nos a mão, dêmos parte á policia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem decerto que vêr n'este negócio. --De certo que não. Este homem é o assassino. E voltando-se para elle com um olhar terrivel, que flammejava debaixo da mascara: --E porque o matou? --Matei-o... respondeu o homem. --Matou-o, disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou, para lhe roubar 2:300 libras em _bank-notes_, que aquelle homem tinha no bolso, dentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas lettras de prata, que eram as iniciais do seu nome. --Eu!... para o roubar! Que infamia! Mente! Eu não conheço esse homem, nunca o vi, não o matei! --Que malditas contradicções! gritou o mascarado exaltado. A.M.C. objectou lentamente: --O senhor que está mascarado... este homem não era seu amigo, o unico amigo que elle conhecia em Lisboa? --Como sabe? gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o braço. Falle,diga. --Por motivos que devo occultar, continuou o homem, sabia que este sujeito, que é extrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou ha poucas semanas, vinha a esta casa... --É verdade, atalhou o mascarado. --Que se encontrava aqui com alguem... --É verdade, disse o mascarado. Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das idéas perturbada, via apparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicavel. --Além d'isso, continuou o homem desconhecido, ha de saber tambem que um grande segredo occupava a vida d'este infeliz... --É verdade, é verdade, dizia o mascarado absorto. --Pois bem, hontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa, pediu-me que viesse ver se o encontrava... Nós esperavamos, petrificados, o fim daquellas confissões. --Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel. E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada. --Leia, disse elle ao mascarado. Este approximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com os braços pendentes, os olhos cerrados. Ergui o papel, li: _I declare that I have killed myself with opium._ (Declaro que me matei com opio). Fiquei petrificado. O mascarado dizia com a voz absorta como n'um sonho: --Não é possivel. Mas é a lettra dele, é! Ah! que mysterio, que mysterio! Vinha a amanhecer. Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até ámanhã. VI Peço-lhe agora toda a sua attenção para o que tenho de contar-lhe. A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruidos da povoação que desperta. A rua não era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada. Tambem não era uma rua larga, porque o echo das carroças era profundo, cheio e proximo. Ouvia pregões. Não sentia carruagens. O mascarado tinha ficado n'uma prostração extrema, sentado, immovel, com a cabeça apoiada nas mãos. O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sofá, com os olhos cerrados, como adormecido. Eu abri as portas da janella: era dia. Os transparentes e as persianas estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candieiros. Entrava uma luz lugubre, esverdeada. --Meu amigo, disse eu ao mascarado, é dia. Coragem! é necessario fazer o exame do quarto, movel por movel. Elle ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma cama, e á cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um panno de velludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um _edredon_ de setim encarnado. Tinha um só travesseiro largo, alto e fôfo, como se não usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vasio e uma jarra com flores murchas. Havia um lavatorio, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova estava uma bengala grossa com estoque. Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma particularidade significativa. O exame d'ella dava na verdade a persuasão de que se estava n'uma casa raramente habitada, visitada a espaços apenas, sendo um logar de entrevistas, e não um interior regular. A casaca e o collete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos via-se no chão, ao pé da _chaise-longue_; o chapeu achava-se sobre o tapete, a um canto, como arremessado. O paletot estava caido ao pé da cama. Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou carteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do collete estava o relogio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha d'ouro, com dinheiro miudo. Não se lhe encontrou lenço. Não se pôde averiguar em que tivesse sido trazido de fóra o opio; não appareceu frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou em pó; e foi a primeira difficuldade que no meu espírito se apresentou contra o suicidio. Perguntei se não havia na casa outros quartos que communicassem com aquelle aposento e que devessemos visitar. --Há, disse o mascarado, mas este predio tem duas entradas e duas escadas. Ora aquella porta, que communica com os demais quartos, encontrámol-a fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu d'esta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto. Como tinha então trazido o opio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o frasco, ou qualquer envolucro que contivesse o narcotico devia apparecer. Não era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara o resto da agua opiada, alli estava. Um indicio mais grave parecia destruir a hypothese do suicidio: não se encontrou a gravata do morto. Não era natural que elle a tivesse tirado, que a tivesse destruido ou lançado fóra. Não era tambem racional que tendo vindo áquelle quarto, esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse gravata. Alguem pois tinha estado n'aquella casa, ou pouco antes da morte ou ao tempo d'ella. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a gravata do morto. Ora a presença de alguem n'aquelle quarto, coincidindo com a estada do supposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicidio e dava presumpções ao crime. Aproximámo-nos da janella, examinámos detidamente o papel em que estava escripta a declaração do suicida. --A lettra é d'ele, parece-me indubitavel que é--disse o mascarado--mas na verdade, não sei porque, não lhe acho a feição usual da sua escripta! Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas. Notei logo no alto da pagina a impressão muito apagada, muito indistincta, d'uma firma e de uma corôa, que devia ter estado gravada na outra meia folha. Era portanto papel marcado. Fiz notar esta circumstancia ao mascarado: elle ficou surprehendido e confuso. No quarto não havia papel, nem tinteiro, nem pennas. A declaração pois tinha sido escripta e preparada fóra. --Eu conheço o papel de que elle usava em casa, disse o mascarado; não é d'este; não tinha firma, não tinha corôa. Não podia usar d'outro. A impressão da marca não era bastante distincta para que se percebesse qual fosse a firma e qual a corôa. Ficava, porém, claro que a declaração não tinha sido escripta nem em casa d'elle, onde não havia d'aquelle papel, nem n'aquelle quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem um livro, um _buvard_, um lapis. Teria sido escripta fóra, na rua, ao acaso? Em casa d'alguem? Não, porque elle não tinha em Lisboa, nem relações intimas, nem conhecimento de pessoas cujo papel fosse marcado com corôa. Teria sido feita n'uma loja de papel? Não, porque o papel que se vende vulgarmente nas lojas não tem corôas. Seria a declaração escripta n'alguma meia folha branca tirada de uma velha carta recebida? Não parecia tambem natural, porque o papel estava dobrado ao meio e não tinha os vincos que dá o _enveloppe_. Demais a folha tinha um aroma de pós de _marechala_, o mesmo que se sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estavamos. Além d'isso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz, distingui o vestigio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o papel no momento de estar suado ou humido, e tinha embaciado a sua brancura lisa e assetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente efficaz e seguro. --Este homem, notou elle, tinha o costume invariavel, mechanico, de escrever, abreviando-a, a palavra _that_, d'este modo: dois TT separados por um traço. Esta abreviatura era só d'elle, original, desconhecida. N'esta declaração, aliás pouco ingleza, a palavra _that_ acha-se escripta por inteiro. Voltando-se então para M. C.: --Porque não apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta declaração foi falsificada. --Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobresalto ou com surpreza. --Falsificada; feita para encobrir o assassinato: tem todos os indicios d'isso. Mas o grande, o forte, o positivo indicio é este: onde estão 2:300 libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso? M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho. --Não apparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete. --Senhor, observou gravemente A.M.C., falla-me em 2:300 libras: dou-lhe a minha palavra de honra que não sei a que se quer referir. Eu então disse lentamente pondo os olhos com uma perscrutação demorada sobre as feições do mancebo: --Esta declaração é falsa, evidentemente, não percebo o que quer dizer este novo negocio das 2:300 libras, de que só agora se falla; o que vejo é que este homem foi envenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o matou, o que sei é que evidentemente o cumplice é uma mulher. --Não póde ser, doutor!, gritou o mascarado. É uma supposição absurda. --Absurda!?... E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente perfumado, carregado de estofos, illuminado por uma claridade baça coada por vidros foscos; a escada coberta com um tapete; um corrimão engenhado com uma corda de seda; ali aos pés d'aquella volteriana aquelle tapete feito de uma pelle de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o vestigio de um homem prostrado? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?... --Ou a qualquer outro fim. --E este papel? este papel de marca pequenissima, do que as mulheres compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz? --Muitos homens o usam! --Mas não o cobrem como este foi coberto, com um _sachet_ em que havia o mesmo aroma que se respira no ambiente d'esta casa. Este papel pertence a uma mulher, que examinou a falsificação que elle encerra, que assistiu a ella, que se interessava na perfeição com que a fabricassem, que tinha os dedos humidos, deixando no papel um vestigio tão claro... O mascarado calava-se. --E um ramo de flôres murchas, que está ali dentro? um ramo que examinei e que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita está impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco, como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um buraquinho... É o vestigio flagrante que deixou no veludo um gancho de segurar o cabello! --Esse ramo podiam ter-lh'o dado, podia tel-o trazido elle mesmo de fóra. --E este lenço que encontrei hontem debaixo de uma cadeira? E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou n'elle avidamente, examinou-o e guardou-o. M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquillado pela dura logica das minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois com voz humilde, quasi supplicante: --Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indicios não provam. Este lenço, de mulher indubitavelmente, estou convencido que é o mesmo que o morto trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço? --E não se lembra tambem que não lhe encontrámos gravata? O mascarado calou-se succumbido. --No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte, exclamei eu. Deploro vivamente esta morte, e fallo n'isto unicamente pelo pezar e pelo horror que ella me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que caisse ás mãos de uma mulher ou ás mãos de um homem, importa-me pouco. O que devo dizer-lhe é que o cadáver não póde ficar por muito mais tempo insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é sair. --Tem razão, vae sair já, cortou o mascarado. E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me: --Um momento! Eu volto já! E sairam ambos pela porta que communicava com o interior da casa, fechando-a á chave pelo outro lado. Fiquei só, passeando agitadamente. A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentos inteiramente novos e diversos d'aqueles que me haviam occupado durante a noite. Ha pensamentos que não vivem senão no silencio e na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; ha outros que só surgem ao clarão do sol. Eu sentia no cerebro uma multidão de idéas extremunhadas, que á luz repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridor de um tiro. Machinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no travesseiro. Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com extranha commoção, sobre a alvura do travesseiro, preso n'um botão de madreperola, um longo cabello louro, um cabello de mulher. Não me atrevi logo a tocar-lhe. Puz-me a contemplal-o, avida e longamente. --Era então certo! ahi estás pois! encontro-te finalmente!... Pobre cabello! apieda-me a simplicidade innocente com que te ficaste ahi, patente, descuidado, preguiçoso, languido! Pódes ter maldade, pódes ter malvadez, mas não tens malicia, não tens astucia. Tenho-te nas mãos, fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não córas; dás-te, consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no emtanto, tenue, exigua, quasi microscopica, és uma parte da mulher que eu adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ella auctora do crime? é inteiramente innocente? é apenas cumplice? Não sei, nem tu m'o poderás dizer? De repente, tendo continuado a considerar o cabello, por um processo de espírito inexplicavel, pareceu-me reconhecer de subito aquelle fio louro, reconhecel-o em tudo: na sua côr, na sua _nuance_ especial, no seu aspecto! Lembrou-me, appareceu-me então a mulher a quem aquelle cabello pertencia! Mas quando o nome d'ella me veio insensivelmente aos labios,disse commigo: --Ora! por um cabello! que loucura! E não pude deixar de rir. Esta carta vae já demasiadamente longa. Continuarei ámanhã. VII Contei-lhe hontem como inesperadamente havia encontrado á cabeceira da cama um cabello louro. Prolongou-se a minha dolorosa surpreza. Aquelle cabello luminoso, languidamente enrolado, quasi casto, era o indicio d'um assassinato, d'uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, immovel, aquelle cabello perdido. A pessoa a quem elle pertencia era loura, clara de certo, pequena, _mignonne_, porque o fio de cabello era delgadissimo, extraordinariamente puro, e a sua raiz branca parecia prender-se aos tegumentos craneanos por uma ligação tenue, delicadamente organisada. O caracter d'essa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabello não tinha ao contacto aquella aspereza cortante que offerecem os cabellos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoista. Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabello, já pelo imperceptivel perfume d'elle, já porque não tinha vestigios de ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados phantasiosos. Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Allemanha, porque o cabello denotava na sua extremidade ter sido espontado, habito das mulheres do norte, completamente extranho ás meridionaes, que abandonam os seus cabelos á abundante espessura natural. Isto eram apenas conjecturas, deducções da phantasia, que nem constituem uma verdade scientifica, nem uma prova judicial. Esta mulher, que eu reconstruia assim pelo exame d'um cabello, e que me apparecia doce, simples, distincta, finamente educada, como poderia ter sido o protagonista cheio de astucia d'aquella occulta tragedia? Mas conhecemos nós porventura a secreta logica das paixões? Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como cumplice. Aquelle homem não se tinha suicidado. Não estava decerto só, no momento em que bebera o opio. O narcotico tinha-lhe sido dado, sem violencia evidentemente, por ardil ou engano, n'um copo d'agua. A ausencia do lenço, o desapparecimento da gravata, a collocação do fato, aquelle cabello louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de uma cabeça, tudo indicava a presença d'alguem n'aquella casa durante a noite da catastrophe. Por consequencia: impossibilidade de suicidio, verosimilhança de crime. O lenço achado, o cabello, a disposição da casa, (evidentemente destinada a entrevistas intimas) aquelle luxo da sala, aquella escada velha, devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido... tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a parte d'ella n'aquella aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? Era o assassino, o cumplice, o occultador do cadaver? Não sei. M. C. não podia ser extranho a essa mulher. Não era de certo um cumplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar opio n'um copo de agua não é necessario chamar um assassino assalariado. Tinham por consequencia um interesse commum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E accudia-me á memoria aquella inesperada referencia a 2:300 libras que de repente me tinha apparecido como um novo mysterio. Tudo isto eram conjecturas fugitivas. Para que hei de repetir eu todas as idéas que se formavam e que se desmanchavam no meu cerebro, como nuvens n'um ceu varrido pelo vento? Há de certo na minha hypothese ambiguidades, contradicções e fraquezas, ha nos indicios que colhi lacunas e incoherencias: muitas cousas significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores inexpressivos se me gravaram na memoria, mas eu estava n'um estado morbido de perturbação, inteiramente desorganisado por aquella aventura, que inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mysterios, se installara na minha vida. O senhor redactor, que julga de animo frio, os leitores, que socegadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor combinar, estabelecer deducções mais certas, e melhor approximar-se pela inducção e pela logica da verdade occulta. Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o chapeu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia. --Vamos, disse elle. Tomei calado o meu chapéu. --Uma palavra antes, disse elle. Em primeiro logar dê-me a sua palavra de honra que ao subir agora á carruagem não terá um gesto, um grito, um movimento que me denuncie. Dei a minha palavra. --Bem! continuou, agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu caracter, a sua delicadeza. Ser-me-hia doloroso que entre nós houvesse em qualquer tempo motivos de desdem, ou necessidades de vingança. Por isso affirmo-lhe: sou perfeitamente extranho a este successo. Mais tarde talvez entregue este caso á policia. Por ora sou eu policia, juiz e talvez carrasco. Esta casa é um tribunal e um carcere. Vejo que o doutor leva d'aqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu n'este crime: não o supponha, não podia ser. No emtanto, se alguma vez lá fóra fallar, a respeito d'este caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnancia, naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas lunetas de cambraia. E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos. Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os stores fechados. Não pude vêr quem guiava os cavallos porque só dentro do coupé achei a vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pelle era fina, pallida, o cabello castanho, levemente annelado. A carruagem seguiu um caminho, que pelos accidentes da estrada, pela differença de velocidade indicando acclives e declives, pelas alternativas de macadam e de calçada, me parecia o mesmo que tinhamos seguido na vespera, no começo da aventura. Rodámos finalmente na estrada larga. --Ah, doutor!, dizia o mascarado com desenfado, sabe o que me afflige? É que o vou deixar na estrada, só, a pé! Não se póde remediar isto. Mas não se assuste. O Cacem fica a dois passos, e ahi encontra facilmente conducção para Lisboa. E offereceu-me charutos. Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou. --Chegámos, disse o mascarado. Adeus, doutor. E abriu por dentro a portinhola. --Obrigado! accrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. Permitta Deus que ambos tenhamos no applauso das nossas consciencias e no prazer que dá o cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da scena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus! Apertámo-nos a mão, eu saltei. Elle fechou a portinhola, abriu os stores e estendendo-me para fóra um pequeno cartão: --Guarde essa lembrança, disse, é o meu retrato. Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a photographia avidamente, olhei. O retrato estava tambem mascarado! --É um capricho do anno passado, depois de um baile de mascaras! gritou elle, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a rodar a trote. Via-a affastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapeu derrubado, uma capa traçada sobre o rosto. Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquelle trem levava comsigo um segredo inexplicavel. Nunca mais veria aquelle homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo. O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sophá, que lhe servia de sarcophago! Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancolica. Ao longe distinguia ainda o trem. Um camponez appareceu vindo do lado opposto áquelle por onde elle desapparecia. --Onde fica o Cacem? --De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de legua. A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Cintra. Cheguei ao Cacem fatigado. Mandei um homem a Cintra, á quinta de F., saber se tinham chegado os cavallos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a a uma janella, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as arvores e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda a brida um fogoso cavallo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o vulto quasi indistincto do cavalleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa alvadia. Tomei informações a respeito da carruagem que passara na vespera comnosco. Havia contradicções sobre a côr dos cavallos. Voltou de Cintra o homem que eu ali mandára, dizendo que na quinta de F. tinham sido entregues os cavallos por um criado do campo, o qual dissera que os senhores ao pé do Cacem, tinham encontrado um amigo que os levara comsigo em uma caleche para Lisboa. D'ahi a momentos chegou a minha carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F. O criado tinha recebido este bilhete a lapis: _Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar, que fui para Madrid._ Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F. estava evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido. Entregar á policia este negocio, tão vago e tão incompleto como elle é, seria tornar-me o denunciante de uma chimera. Sei que, em resultado das primeiras noticias que lhe dei, o governador civil de Lisboa officiou ao administrador de Cintra convidando-o a metter o esforço da sua policia no descobrimento d'este crime. Foram inuteis estas providencias. Assim devia ser. O successo que constitue o assumpto d'estas cartas está por sua natureza fóra da alçada das pesquizas policiaes. Nunca me dirigi ás authoridades, quiz simplesmente valer-me do publico, escolhendo para isso as columnas populares do seu periodico. Resolvi homiziar-me, receando ser victima de uma emboscada. São obvias, depois d'isto, as rasões por que lhe occulto o meu nome: assignar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como quero. Do meu impenetravel retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do sol nascente atravez das minhas jelozias. Oiço os pregões dos vendedores matinaes, os chocalhos das vaccas, o rodar das carruagens, o murmurio alegre da povoação que se levanta depois de um somno despreoccupado e feliz... Invejo aquelles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras passeiam, conversam, moirejam na rua. Eu--pobre de mim!--estou encarcerado por um mysterio, guardado por um segredo! P. S. Acabo de receber uma longa carta de F. Esta carta, escripta ha dias, só hoje me veiu á mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora pude haver essa interessante missiva. Ahi tem, senhor redactor, copiada por mim, a primeira parte d'essa carta, da qual depois de ámanhã lhe enviarei o resto. Publique-a, se quiser. É mais do que um importante esclarecimento n'este obscuro successo; é um vestigio luminoso e profundo. F... é um escriptor publico, e descobrir pelo estylo um homem é muito mais facil do que reconstruir sobre um cabello a figura de uma mulher. É gravissima a situação do meu amigo. Eu, afflicto, cuidadoso, hesitante, perplexo, não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão, rendo-me á decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do autographo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem... se poderem. Adeus! +INTERVENÇÃO DE Z.+ Nota do Diario de Noticias.--No original da carta publicada hontem havia algumas palavras a lapis, nas quaes só fizemos reparo depois de impresso o jornal. Essas palavras continham esta observação: _A photographia do mascarado foi feita em casa de Henrique Nunes, rua das Chagas, Lisboa. Talvez ahi possa haver noticia do sujeito photographado._ Antes de darmos á estampa a longa carta de F..., cuja primeira parte nos foi hontem enviada pelo medico, é dever nosso tornar conhecida uma outra importantissima que recebemos pela posta interna, assignada com a inicial _Z._, e que temos em nosso poder ha já tres dias. Esta carta, que tão estreitamente vem prender-se na historia dos successos que constituem o assumpto d'esta narrativa, é a seguinte: Senhor redactor do _Diario de Noticias_.--Lisboa, 30 de julho de 1870.--Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quasi toda a gente em Lisboa, as cartas publicadas na sua folha, em que o doutor anonymo conta o caso que essa redacção intitulou _O mysterio da Estrada de Cintra_. Interessava-me essa narrativa e segui-a com a curiosidade despreoccupada que se liga a um _canard_ fabricado com engenho, a um romance á similhança dos _Thugs_ e de alguns outros do mesmo genero com que a veia imaginosa dos phantasistas francezes e americanos vem de quando em quando acordar a attenção da Europa para um successo estupendo. A narração do seu periodico tinha sobre as demais que tenho lido o merito original de se passarem os successos ao tempo que se vão lendo, de serem anonymas as personagens e de estar tão secretamente encoberta a mola principal do enredo, que nenhum leitor poderia contestar com provas a veracidade do caso portentosamente romanesco, que o auctor da narrativa se lembrara de lançar de repente ao meio da sociedade prosaica, ramerraneira, simples e honesta em que vivemos. Ia-me parecendo ter diante de mim o ideal mais perfeito, o typo mais acabado do _roman feuilleton_, quando inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as iniciaes de um nome de homem--A. M. C.--accrescentando-se que a pessoa designada por estas lettras é estudante de medicina e natural de Vizeu. Eu tenho um amigo querido com aquellas iniciaes no seu nome. É justamente estudante de medicina e natural de Vizeu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia por tanto o intuito de fazer cobardemente uma insinuação infamissima. Isto não é licito a romancista nenhum. A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tedio. Saindo de casa pouco depois da leitura do seu periodico, procurei o meu amigo para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me á sua disposição no caso que precisasse de mim para pedir quanto antes á redacção do _Diario de Noticias_ a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam de certo recusar a semelhante aggravo. Em casa do meu amigo acabo porém de saber, cheio de confusão e de surpresa, que elle desappareceu e que é ignorado o seu destino! Este desapparecimento e a coincidencia achada na carta do doutor levam-me desgraçadamente a acreditar que por extranhas fatalidades o meu infeliz amigo se acha involuntariamente envolvido n'este tenebroso negocio. A data do desapparecimento d'elle condiz perfeitamente com a que encontro na carta do seu correspondente. É claro que ha pois em volta da pessoa de A. M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição. Serei tristemente obrigado a ter por veridica, no todo ou em parte, a noticia que leio na sua folha? Julgo do meu dever assegurar o seguinte: Não sei o que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa casa desconhecida, tendo uma chave d'ella, martello e pregos. Não sei porque se declarou auctor do assassinato, negando-o depois. Ignoro a intima verdade d'estas contradicções. Mas o que sei, aquillo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas amigos, mas numerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do assassinato elle esteve, até quasi de madrugada, em minha casa, conversando, rindo, bebendo cerveja. Saiu talvez ás tres horas da noite. Declaro tambem, e isto póde ser egualmente apoiado por seguras testemunhas: que ás nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto d'elle. Ainda dormia, acordou sobresaltado á minha voz, e tornou a adormecer em quanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine. As donas da casa que o hospedam disseram-me que elle entrara pela madrugada. --Ali pela volta das tres e meia, conjecturavam ellas. Ora da minha casa, d'onde saiu ás tres, até casa d'elle, onde entrou ás tres e meia, o caminho que é longo, occupa justamente este espaço de tempo. Por consequencia, respondam: quando commetteu elle o crime? O emprego do seu tempo está todo justificado: das nove da noite até á madrugada em minha casa, n'uma conversa jovial e intima; da madrugada até ás nove, n'um somno pacifico em sua propria casa. Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não ha testemunhas. É crivel que em meia hora podesse ir alguem a essa casa, preparar opio, fazel-o beber a um homem, falsificar uma declaração e vir socegadamente dormir? Tem isto logica? Demais o crime foi commettido n'uma casa, o opio foi deitado n'um copo d'agua, dado traiçoeiramente. O cadaver estava meio despido. Tudo isto indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham conversado intimamente, tinham rido decerto; o que depois morreu tinha talvez calor, poz-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura anedoctas, e n'um momento de sede, o opio foi dado n'um copo d'agua. E tudo isto se faz em meia hora! em _meia hora!_ Devendo, meus senhores, descontar-se d'esta meia hora o tempo que vae de minha casa á casa do crime, e d'ahi a casa de A. M. C.! Póde isto ser? Agora outro argumento: Eu conheço A. M. C.: o seu caracter é digno, impeccavel; o seu coração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e isolada; não existe n'ella nem mysterio, nem aventura, nem pathetico: estava para casar, sem romance, trivialmente. Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Estou certo que nunca viu o assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia extrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado ha pouco tempo em Portugal! Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impossivel. Se o homem foi encontrado estendido n'um sophá, morto com opio! Poderia M. C. ter sido assalariado para commetter este crime? Que loucura! Um homem da sua intelligencia, do seu caracter, da sua elevação de espírito! Além de que, hoje o emprego de homicida, regular e devidamente retribuido como uma funcção publica, não existe nos costumes. Póde-se conceber que um homem que premedita um crime esteja até ao momento decisivo distrahido, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo cerveja? E que depois vá socegadamente dormir, e que um amigo que o visite na manhã seguinte encontre sobre a sua banca de cabeceira, uma chavena de chá e um livro de historia? E dê-se isto com um homem de caracter timido, de habitos modestos, homem de estudo, sem energia de acção, e de uma notavel franqueza de impressões! Se me perguntarem, porém, porque apparece M. C. de noite n'aquella casa com um martello, com pregos, e se declara assassino,--isso não o sei explicar. Suspeito que haja uma grande influencia que peza sobre elle, alguem que com promessas extraordinarias, com seducções indisiveis, o obriga a apresentar-se como auctor do crime. M. C. evidentemente sacrifica-se. Por quem, ignoro-o. Mas sacrifica-se, e na ignorancia de que estas dedicações são sempre desapreciadas perante o trabalho da policia, quer expiar o crime de outro; perde-se para salvar alguem. Com que interesse? por que seducções? Não sei explicar. Elle, tão indifferente ao dinheiro! tão rigido de costumes e de sensações! Pois bem! M. C. póde sacrificar-se; póde-o fazer. Nós, seus amigos, é que não podemos consentil-o. O seu corpo, que lhe pertence exclusivamente, póde dal-o á infecção d'um carcere, ou ao peso d'uma grilheta. Mas o seu caracter, a sua honra, a sua reputação, a sua alma, essa pertence tambem aos seus amigos, e a parte que nos pertence havemos de defendel-a corajosamente. Não! M. C. não foi o assassino. Dil-o a evidencia, a fatal logica dos factos, a terrivel mathematica do tempo, o conhecimento do seu caracter, e a coherencia dos temperamentos, que é uma verdade nas sciencias physiologicas. Não, não é o assassino. Se o diz, está louco, _mente_. Digo-lh'o claramente, em frente, diante dos seus proprios olhos fitos sobre os meus:--Se te declaras o auctor d'esse crime, _mentes_! Elle tem de certo o senso moral transviado. Se me deixassem fallar-lhe!... Esclareçam-lhe, pelo amor de Deus, aquella rasão cheia de escuras nuvens da paixão e da dôr! Isto é afflictivo! Honra, amor, familia, esperança, tudo esqueceu esse homem! Que se lembre, o desgraçado, que não é só n'este mundo. Que se lembre que talvez a estas horas, no fundo da provincia, sua mãe, suas irmãs, sabem já que elle está aqui apontado como assassino! Que se lembre da terrivel deshonra, do seu futuro perdido, das horas solitarias da prisão, da atroz vergonha de um interrogatorio publico, e do echo profundo que faz na alma humana o ruido sinistro dos ferros da grilheta. Não ponho no fim d'esta carta o meu nome, porque presinto vagamente n'este grupo de successos, confusamente conglobados perante a minha apreciação, a passagem mysteriosa e fatal de um crime que vae poderosamente na direcção do seu fito, esmagando e despedaçando os estorvos que o impecem. Ora eu não quero que a publicidade do meu nome leve os cumplices no attentado de que se trata, ou porventura a policia, a aniquillar ou a embaraçar de qualquer modo a intervenção expontanea que eu proprio vou ter no descobrimento dos reus. Conto com os meus recursos, mas preciso para os pôr em pratica de toda a minha liberdade. Creia-me, senhor redactor, etc--_Z._ +DE F... AO MEDICO+ I Julho 21 à 1 hora da noite. --Meu querido amigo. --Ignoro se estás em tua casa, para onde te dirijo esta carta, ou se continuas, como eu, permanecendo aqui em carcere privado. Em qualquer dos casos, recebidas agora ou encontradas mais tarde, estas letras ficarão encerrando para aquelle de nós que houver de as ler a lembrança proveitosa das horas mais extraordinarias da nossa vida. Escrevo mais para coordenar e fixar na memoria estes momentos do que para empregar n'outro destino puramente hypothetico esta carta. Será uma pagina das minhas confidencias que entregarei á discrição ou ao acaso da posta, reservando-me o direito de lhe pedir que m'as restitua a seu tempo. Não tornei a ter noticias tuas desde que nos separámos hontem á noite, pouco tempo depois de termos entrado na sala em que estava o cadaver. O mascarado que se encarregára de me conduzir ao quarto onde me acho deu-me o seu braço e disse-me ao ouvido um nome de mulher, a indicação de uma rua e o numero de uma porta. Era o nome da pessoa que sabes e a designação da casa em que ella mora! Creio que involuntariamente estremeci, mas consegui dizer serenamente: --Não o comprehendo. Este individuo era o mesmo que na carruagem se conservára sempre calado, o mesmo que na sala me observava com attenção e desconfiança. Aquella estatura, aquella falla, aquella voz, posto que apenas perceptivel ao meu ouvido, não eram novas para mim. Elle respondeu fallando-me ainda mais baixo: --Não poderá sair d'aqui antes de dois ou tres dias. Veja se precisa de escrever uma carta ou de mandar um recado. Passou-me pela mente uma idéa a respeito d'aquelle homem... Se fosse... Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio; bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão. --Escreverei duas linhas, disse eu; quererá dar-me um lapis? Tinhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu desvendei-me ao tempo em que elle saia promettendo trazer-me o necessario para escrever. O individuo que voltou com papel e pennas não era o mesmo que acabara de sair. Assim tinha eu perdido a occasião de confirmar uma suspeita ou de desvanecer uma duvida. Em todo o caso escrevi duas linhas ao meu creado serenando-o com relação ao meu desapparecimento. --Mais nada? interrogou o desconhecido tomando o meu bilhete. --Nada mais. Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de escrever directamente á pessoa a quem o mascarado se referira. Fecharam a porta e fiquei só. Achei-me n'um quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janella. A um lado havia um lavatorio; sobrepostas a um canto tres malas de viagem, de coiro de Varsovia com pregos d'aço, estrelladas com senhas de caminhos de ferro, d'hoteis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em grandes lettras pretas sobre uma tira de papel este distico: _Grand-Hotel-Paris_; uma das senhas era dos paquetes inglezes da carreira da India. Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples guarnição d'este aposento um sophá forrado de marroquim verde, collocado no meio da casa defronte de uma ampla mesa em que estava posta a minha ceia á luz fulgurante de um grande candeeiro com largo _abat-jour_. Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquelle recolhimento, aquelle socego, aquella solidão, depois da grande sobreexcitação em que me tinha achado! Estirei-me no sophá, puz-me a olhar machinalmente para o circulo da luz trepidante projectada pelo candeeiro e contornada no tecto pela abertura do _abat-jour_, e começaram a desafogar-se-me os comprimidos spasmos do coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me convidavam suavemente ao repouso. A minha imaginação occupada n'um trabalho inconsciente, similhante ao dos sonhos, ia tirando no emtanto do caso que eu presenceára as ramificações mais illogicas e mais phantasticas. Os successos por que passámos desde a estrada de Cintra até á minha entrada n'este quarto appareciam-me redemoinhando convulsamente no ar como um enorme enigma figurado, cujos objectos tumultuavam impellidos pelos pontapés de diabinhos sarcasticos, que se riam para mim e me deitavam de fóra as linguasinhas em braza. Fui caindo mollemente n'um despego languido, fecharam-se-me os olhos, adormeci. Ao acordar, depois de um somno breve mas socegado e reparador, encarei na ceia que reluzia aos meus olhos. Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, uma terrinasinha de _foie gras_, uma perdiz, uma fatia de queijo e tres garrafas de vinho de Bourgogne, lacradas de verde; junto d'estas, quatro garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o sacarolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um feixe de charutos côr de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se collocado o instrumento destinado a abril-a. O copo era de cristal finissimo, o garfo de prata dourada, a faca de cabo de madreperola, os pratos de porcellana brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sophá, senti a fome encavallar-se-me no dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia, cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estomago vasio os acicates da gula. Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a abantesma do susto, cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão descarnada e tremula com um gesto prohibitivo e solemne. Atarantado, perplexo, escutei então dentro de mim um breve dialogo similhante áquelles que Xavier de Maistre travava de quando em quando com a _besta_, na sua viagem á volta do quarto. Havia uma voz pausada e grave que dizia: --Attenta no que fazes, temerario! abre teus olhos, inconsiderado mortal! Essa perdiz, cujo peito insidioso e perfido está lourejando a teus olhos, foi apimentada com arsenico. Aquelle Chambertin, que te espera como uma onda da lagoa Stigia, embuscada por detraz d'aquelle lettreiro envernizado, apparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdade tenebroso e fatal como o distico do festim de Balthazar, aquelle vinho, que te offerece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com acido prussico. As truffas, lubricas, venaes, devassas, envoltas n'esses figados de pato, estão empapadas nos temperos lethaes da cosinha dos Borgias! A outra voz, insinuante e meiga, dizia n'uma vaga melodia de sereia: --Come, se tens fome, estupido! Estás com medo do papão, maluco?... Põe os olhos n'esse lacre: não será um penhor seguro da pureza do liquido que elle tapa a marca d'esse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada, chumbada e garantida com os mais especiaes lavores a lata d'essas sardinhas pescadas nas costas de França e cosinhadas ha seis mezes em Marselha? Não vês religiosamente grudada e sellada com as etiquetas insuspeitas e sagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de _foie gras_? Suppões acaso, ó parlapatão, que meio mundo se conjurasse para te arrancar essa vida inutil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso. Deleita-te conversando depois comtigo e repousando-te no seio tepido da melancolia, d'essa deliciosa fada que só apparece evocada pelos namorados e pelos solitarios, e que é na terra a irmã mais nova da tristeza, a irmã _gatée_, a irmã feliz! Eu no entanto havia cortado a caixa de sardinhas, desgrudado a tampa da terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que misturára n'um copo. Puz-me por fim a comer com apetite, com valor, com delicia, com uma especie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta de mim os espiritos beneficos do carcere que bafejaram as prisões de Silvio Pellico. É singular isto: achava-me bem! Depois da ceia accendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo comigo: --Visitemos o paiz! Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava havia uma outra porta. Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei a cama encostada á parede em que se achava esta porta e abri-a. Era uma armario na espessura do muro, largo, profundo, dividido a meia altura por um prateleiro espaçoso e solido. Occorreu-me que ao fundo do armario haveria talvez um tabique delgado atravez do qual me seria possivel escutar o que se passasse na casa contigua. Penetrei no armario, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado havia um ruido volumoso e macisso. Parecia que se estava arrastando um movel pesado e grande. O fundo do armario era effectivamente formado por um tapamento franzino. Era possivel que tivesse havido primitivamente uma porta no logar em que se fizera o armario. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via deante de mim um pedaço de ripa atravessada diagonalmente e descarnada da cal. Peguei no saccarolhas, e no logar indicado fui esburacando devagarinho e progressivamente o cimento do muro, até operar um orificio imperceptivel, pelo qual me era dado vêr a luz e ouvir distinctamente o que se dizia do outro lado. Eis-aqui o que ás onze horas e meia da noite se estava passando no quarto contiguo áquelle que me serve de prisão: II Havia dois homens que arrastavam um grande leito de madeira do logar em que elle estava para ao pé da parede que divide a casa em que me acho d'aquella em que se passava a scena que descrevo, e exactamente para junto do logar em que eu acabava de abrir o buraco que me servia de olho e de orelha. Um d'esses homens dizia assim: --Será o que muito bem quizer, mas eu é que não torno a vir cá a andar aos trambulhões com os moveis á hora da meia noite. --Ha de ter muita razão de queixa! tornava o outro. Dou-lhe uma libra para me ajudar, quero saber se não é melhor isto que estar lá em baixo estendido ao pé da mangedoura, á espera que chegue o trem para ir tratar dos cavallos, a enfastiar-se sem ganhar vintem. Aquelle que dizia estas palavras, comquanto se expressasse claramente, tinha todos os defeitos de pronuncia que distinguem os extrangeiro que falla portuguez. Pela aspiração especial de certas vogaes e pela contracção habil com que pronunciava os aa, era por certo allemão. O que primeiramente fallára, proseguiu: --É bom lucro... Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E olhe que não encontra seis homens aqui na rua que entrem cá de noite, a estas horas, ainda que os pese a oiro! --Para mudar uma cama! --Não é pela cama, é por ser a casa que é! --Ora adeus! que tem a casa?!... --Não tem nada! É uma graça! Ella é de tal casta que o senhorio teve-a quatro annos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já de graça e não tinha alma viva que lhe pegasse! A ultima gente que cá morou esteve só duas noites, e foi-se d'aqui tolhida com as coisas que lhe appareceram e com as trapalhadas que ouvia... Cruzes demonio! cruzes diabo! --Petas! historias da vida! --O senhor! não me diga que são petas! Pois eu não vi a familia!?... não estive com elles!? Fugiram de noite, fugiram á segunda noite que dormiram cá, estarrecidos de medo. --Então que viram elles? --Elles não viram nada. --Então ahi tem! --Não viram, mas ouviram. --Haviam de ouvir boas coisas! --Ouviram, sim senhor, ouviram. E não foi só a elles que succedeu isso, foi a todos quantos cá moraram. E era gente de bem, que não mentia, que não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram com ella perdida! --Então que ouviam elles? --O senhor bem o sabe!... O que elles ouviam? Ouviam pancadas nas portas, quando ninguem batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem os carvões exactamente como se estivessem abanando á fogueira, quando estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um passaro que principiava a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes; ouviam-o arquejar e bufar approximando-se cada vez mais dos que estavam deitados, pairando tão rente das camas que se lhe sentia o estremecer das pennas, o calor de lume que elle deitava do bico e ao mesmo tempo o frio de neve que fazia a mover as azas! --Ora adeus! tinham ouvido fallar n'isso e pareceu-lhes que sentiam o tal passaro, de que já fallavam os inquilinos anteriores, os quaes tambem tinham ouvido fallar n'elle, não havendo ao fim de contas ninguem que verdadeiramente o tivesse ouvido. --Então o senhor não sabe porque foi que elles fugiram, os ultimos que estiveram cá, faz agora quatro annos? --Ouvi fallar n'isso, mas por alto, não me deram pormenores. --Eis ahi está porque o senhor não acredita! A coisa foi esta: Elles eram gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis annos. Para o que désse e viesse dormiam todos juntos na mesma sala. A pequenita a quem elles não contavam nada por causa do medo, estava n'uma caminha a um lado. Dormiam com luz na lamparina, e como trabalhavam muito de dia e estavam cansadissimos á noite, lá pegavam no somno apesar do barulho das faúlas do fogareiro e das argoladas nas portas. Vae senão quando, á segunda noite que passavam cá, accordam aos gritos da creança. Tinha-se apagado a luz. Accenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por dentro. Os fechos das janellas achavam-se corridos. No quarto não havia mais ninguem. Mas a roupa da cama da creança estava cahida a dois ou tres passos de distancia do berço em que ella dormia, e a pequenita, nua, tranzida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes, disse, quando lhe chegou a falla que teve perdida por um bocado, que sentira umas cousas como os pés de uma gallinha muito grande que se lhe pousavam na cama; que se achara depois descoberta e ouvira umas coisas suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que mettiam medo e que ella não entendia, emquanto um peito coberto de pennas se lhe roçava pelo seio nu. A mãe então vestiu-lhe á pressa uns fatinhos, embrulhou-a n'um chale, estreitou-a nos braços, poz-se a dar-lhe beijos e acalental-a com o bafo, e saiu para a rua aterrada e como doida. O homem, que era valente e destemido, correu a casa toda com luz e sem luz, mettendo-se por todos os cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com uma faca de ponta que levava em punho. Não appareceu ninguem! Ninguem podia ter saido! Ninguem podia ter entrado! No dia seguinte foi levar a chave do predio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro lhe compraria esta casa para elle mesmo a deitar abaixo com um picão e a machado, para lançar o fogo a quanto podesse arder, e calcar depois aos pés e salgar o monte de cinzas que ficasse no chão. --Pois senhor, eu nenhuma d'essas cousas tenho ouvido, e é esta a segunda noite que durmo aqui. --Gabo-lhe o gosto! E não tem medo? --Nenhum. --Por isso por ahi dizem do senhor o que dizem! --Então que dizem por ahi de mim? --Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um allemão da Moirama e que tem partes com o demonio. --Mais um bocadinho para traz, que eu o ajudo! exclamou o estrangeiro, mudando de tom. --Isto assim? --Ainda mais... um quasi nada... até ficar a cabeceira unida á hombreira da porta... Basta! --Não quer mais nada? --Mais nada. Aqui tem a sua libra e leve d'ali uma d'aquellas velas para que o avejão lhe não appareça na escada ao apanhal-o ás escuras. --Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o senhor gosta... --A fallar-lhe a verdade gosto! --Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá, veja se passa ahi para a casa que fica ao lado! --Bem me queria a mim parecer que a casa do lado tambem tem... --Se tem! Essa então é o diabo, é o proprio diabo que lá mora! O homem que viera ajudar á mudança da cama accendeu a luz e desceu a escada. O allemão ficou só, fechou a porta e principiou a despir-se para se deitar. O dialogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e despertado em mim o mais curioso interesse. Sem procurar directamente indagar cousa alguma, começava a entrar pelo modo mais extranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados pela superstição ou pela ignorancia, explicariam de certo o desfecho a que viemos assistir e a presença do cadaver na sala em que o fomos encontrar. Agora nós, meu interessante e precioso visinho. III A cama do allemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de observação. O meu visinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou ás escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se ageitava para dormir. --Ah! tua amas o murmurio dos espiritos invisiveis?... exclamei eu, dirigindo-me mentalmente ao philosopho que me ficava do outro lado do muro. Aprazem-te as ondulações sonoras das moleculas da vida animal que vagueiam dispersas no espaço, procurando o sopro mysterioso que as condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu espírito esses elos informes e incoerciveis, que ligam o mundo das cousas conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu empregas as tuas faculdades de _medium_... E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede tres pancadinhas seccas, methodicamente espaçadas, como as dos signaes maçonicos. Senti roçar a mão d'elle pelo papel que forrava o muro, como quem procurasse apalpar algum signal do rumor que ouvira. Entrei então a repetir com successiva frequencia o rebate que lhe dera percorrendo differentes pontos da parede que servia de fundo ao armario. Percebi que elle se sentava na cama. Ouvi estalar um phosphoro. Accendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei silencioso e immovel. O meu visinho apagou finalmente a luz ao cabo de alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho e repetidamente como primeiro fizera. Elle, tendo escutado por algum tempo ás escuras, accendeu outra vez a vela e começou a examinar o espaço da parede, junto da qual lhe ficava a cama. No momento em que a chamma da vela perpassava na mão d'elle por defronte do meu buraco, soprei-lhe de repente e apaguei a luz. O allemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede, expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de terror, com quanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo. O que produzira esse estrondo fôra o baque do corpo d'elle, cahindo da cama abaixo. Logo depois ouvi a voz do visinho perguntando com decisão e firmeza: --Quem está ahi? Respondi-lhe: --Sou eu. --Quem és tu? --E tu quem és? --Frederico Friedlann, cidadão prussiano. --Ah! disse eu. --Viajo por conta da primeira fabrica de productos chimicos de Buda Pesth, os quaes sou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriaes da Europa. --Bem! observei. Elle continuou impassivelmente: --Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa tres predios de que elle tinha noticia, os quaes se achavam abandonados depois de algum tempo de terem ganhado fama de serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi morar successivamente nas casas que elle me indicou e é esta a primeira que habito. Componho um livro com investigações a respeito do espiritismo. Poderei saber agora a quem me dirijo? --Pois não! tornei-lhe eu. Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das minhas propriedades, ora viajando, ora residindo em Lisboa, e occupando-me de quando em quando com a politica ou com a litteratura, quando não tenho outra cousa menos insipida e menos inutil em que agitar a minha ociosidade e o meu tedio. Não sou espiritista. --Pois faz mal! O espiritismo é um systema e póde bem succeder que venha ainda a ser uma religião. --Puff! exclamei eu rindo. --O quê! continuou elle. O materialismo, guiado de um lado pelas conquistas das sciencias physicas e naturaes e de outro lado pelo relaxamento dos costumes contemporaneos, e pela depressão successiva e assustadora da moral, vae comendo no campo da philosophia o espaço não já muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão successivamente sustituir as crenças e as doutrinas mortas por que se regulava o sobrenatural. O homem, que, segundo todas as probabilidades, não poderá nunca prescindir do maravilhoso, d'esse attractivo supremo da sua imaginação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e aperfeiçoado pela sciencia futura, a theoria de uma tal ou qual sobrevivencia que o lisongeie, e a base de correlações ainda não estudadas dos seres que existem com aquelles que os precederam e com os que se lhes hão de seguir. Os espiritistas de hoje serão de entre todos os philosophos contemporaneos que não querem acceitar em absoluto o dogma esteril e desconsolador da materia omnipotente, os unicos que hão de collaborar na philosophia do futuro. --Ora ha de me dar licença que lhe pergunte uma cousa... --Tem-me ás suas ordens. --Sem com isto querer fazer aggravo ao seu juizo! --Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a natureza d'ella. --Acredita em alguma das cousas em que esteve ahi fallando o homem que veiu ajudal-o a mudar a cama? Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava fallando com um doido, com um visionario, com um monomaniaco, ou simplesmente com um homem de espírito extravagante, com um excentrico. --Eu não creio nem tambem descreio de cousa alguma que ouço, responde-me elle. É meu systema admittir tudo quanto esteja para se provar e duvidar de tudo aquillo que me apresentem como cousa positiva. É o unico meio prudente de nunca nos affastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa de ha pouco, tem uma parte da historia d'esta casa. Neguei quanto me disse o homem que esteve aqui porque me obriguei com o senhorio do predio a desvanecer com as minhas informações o anathema que pesa sobre a sua propriedade. A verdade é que tenho ouvido distinctamente ha duas noites consecutivas um rumor insistente e prolongado similhante aos estalidos que produz ao ateiar-se uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar como nem porquê, se move, sem que ninguem lhe toque, do centro da mesa em que o colloquei para uma das extremidades d'ella. O pó agglomerado em volta da base do busto, e que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vae deixando successivamente sobre a superficie da mesa o vestigio d'esse movimento vagaroso, lento, quasi imperceptivel, mas progressivo e constante. N'esta porta ao pé da qual colloquei hoje a cama, ouço em cada noite, ora por duas, ora por tres vezes, uma argolada perfeitamente clara e distincta. Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder fazel-o do modo mais rapido), fica sempre inexplicavel para mim a razão porque se levanta a argola do ferrolho e bate de per si mesma na porta! Todas estas cousas eram asseveradas pelo prussiano com a emphase da sinceridade e da convicção mais profunda! --E d'esta casa de cá, observei-lhe eu, que tem ouvido? o que sabe? que lhe consta? --Eu lhe digo... --Sinceramente! --Por mim pessoalmente nada tenho ouvido. O inquilino que me precedeu conta que ouvia no silencio da noite um rumor confuso de vozes, o estalar de risadas e o telintar de dinheiro. Alguns visinhos têem visto entrar vultos mysteriosos. Tudo isto porém se explica do modo mais natural d'este mundo. --Qual é então o seu juizo, vejamos? --É evidentemente... --Diga! diga! --Presumo eu, pelo menos... --Vamos! sem rodeios, francamente! --De duas uma: ou uma loja maçonica, ou uma casa de jogo. IV As palavras do allemão acabavam de lançar no meu espírito a luz subita de uma revelação que me obrigava a meditar. O que se passava por mim, o mysterio que me cercava, o cadaver que vira, a presumpção--ainda que vaga--da concorrencia de um ou mais amigos meus envolvidos n'este acontecimento, tudo isto era tão extraordinario e tão grave que eu não ousava referil-o ao homem desconhecido que o acaso me deparava por visinho. Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente saber qual era a rua e a casa em que estava; não me occorria porém um pretexto plausivel para levar o allemão a dizer-m'o, sem que eu o interrogasse de um modo ambiguo, que poderia levantar sobre a situação em que me acho suspeitas talvez perigosas para a segurança das pessoas compromettidas n'este negocio. Contentei-me pois em allegar o incommodo a que me obrigava a posição em que estava, e dei as bôas noites ao meu visinho. Elle despediu-se batendo no muro tres pancadas espaçadas por pausas eguaes ás d'aquellas com que eu primeiro lhe despertára a attenção. Lembrou-me que poderia ser mação aquelle homem, e que nas circumstancias em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome de juramentos reciprocos e de compromissos communs. Dei-lhe então uma letra, elle respondeu-me com outra e assim construimos successivamente a palavra da senha. --_Salut, mon frêre!_ exclamou elle. --Segredo! disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro ao sinal que me déra. Fechei em seguida o armario, cheguei a cama para o logar d'onde a tinha removido, e deitei-me vestido. Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer. N'esta casa, debaixo d'estes mesmos tectos, está morto um homem, moço, elegante e bello, que entrára aqui, cheio talvez de esperanças, d'alegrias, de projectos no futuro, e que de repente caiu para todo o sempre, envenenado por mão mysteriosa, ignorado, desconhecido, só, longe de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da familia que o acarinhou em pequeno, longe dos logares saudosos que o viram nascer, da mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pae angustiado que em nome da humanidade lhe lançasse a derradeira benção. Desventurado rapaz! quem sabe as torturas por que passou o teu espírito para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o seu corpo inerte, impassivel, mudo como a interrogação de um enigma posto anonymamente no meio de uma pagina branca? quem sabe os pensamentos que a morte immobilisou no teu cerebro? quem sabe os affectos que ella enregelou no teu coração, onde ha pouco tempo ainda golphava abundantemente a fecunda seiva d'essa mocidade esterilisada e extincta agora para sempre? Pobre moço! tão digno de lastima como és, merecedor talvez de profundas saudades, ahi estás adormecido no teu somno eterno, vestido de baile, coberto com uma manta de viagem, estirado n'um sophá, insensivel para sempre ás alegrias e ás amarguras d'esta vida miseravel; e não haverá por ventura uma só lagrima que commemore, na historia breve da tua passagem na terra, este praso tão pungentemente melancolico em que os mortos estão esperando dos vivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade póde dispensar áquelles que mais présa e que mais ama: a doação da cova em que reside o esquecimento! Os olhos d'aquelles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo somno tranquillo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão por ventura fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz cantarolando a ultima valsa que o baile te deixou no ouvido, vêr-te finalmente apparecer, descuidado, risonho e feliz. Coitados!... Os passos d'aquelle que ainda hoje talvez se despediu da vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais á voz que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o fitavam; os seus labios não voltarão outra vez a approximar-se dos labios que se collavam nos d'elle! Eu não choro a tua memoria, porque não te conheço, porque nunca nos encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dôr que adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes insepulto, em quanto alguem te espera vivo no mundo. Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite escrevendo-te estas longas paginas, que de certo estimaremos ler um dia, em disposição de espírito bem differente d'aquella em que ambos nos achamos hoje. Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o silencio que me envolvia, cortado apenas pelo fremito da minha penna no papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados fallando baixo no aposento que atravessei antes de entrar n'aquelle em que estou. Tinha terminado o paragrapho anterior a este quando o mesmo rumor se repetiu, e tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Approximei-me da porta e collei o ouvido ao buraco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo natural que os nossos aprisionadores estejam ás escuras, é provavel que haja um corredor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquelle em que eu me acho e o quarto proximo em que elles fallam. Não podia perceber o que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar esta carta, quando um levantou mais a voz e eu ouvi distinctamente estas palavras: --Mas as notas de banco, 2:300 libras em notas! Não as trazia elle? --Sei que as trazia, dizia outra voz. --É atroz então! Estas palavras, unicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes calcular! É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho consagrado a entrevistas d'amor, como eu primeiro suppuz. Das hypotheses do prussiano é absolutamente necessario acceitar uma: isto ou é uma casa de jogo ou uma loja maçonica. Assim o provam convincentemente os ruidos que se ouviam na morada contigua. N'um retiro de paixões ternas não se escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que telinta nas mezas. A referencia dos vultos mysteriosos feita pela visinhança permitte a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mesmo aspecto do _boudoir_ em que estivemos não consentem duvidar-se que esta casa é uma caverna de jogo e de orgia. As palavras que ha pouco ouvi suggerem-me sobre estas supposições a mais tenebrosa suspeita. O desgraçado que jaz ahi dentro podia ter sido victima de um homicidio, premeditado com o intuito de roubar-lhe a quantia que elle trazia comsigo. Occorre uma contradicção: na suggerida hypothese para que foram buscar um medico? Explicam-n'o as palavras que ouvi. Os criminosos, que tinham propinado opio á sua victima com o intuito de a roubarem, encontram illudido este projecto com o desapparecimento das notas que lhe suppunham na algibeira. N'esta conjectura sobrevem-lhes um recurso extremo: procurar um medico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o opio, e quererem por esta prova de zelo, de solicitude, de confiança na sua innocencia, affastar de si a presumpção do crime, e crear as difficuldades de um mysterio! É possivel que eu não attinja exactamente a verdade do que se passou. O indubitavel porém é que o desapparecimento já constatado da somma que o assassinado trazia comsigo não póde adunar-se dentro d'esta casa com a probidade e com a honra. Depois d'isto é quasi escusado dizer-te qual é a determinação que vou tomar. O meu visinho prussiano é um homem um tanto phantastico, mas parece-me sincero e honrado. Vou fechar esta carta, subscriptal-a e pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facilmente meio de a passar para o quarto d'elle. Se conseguir arrombar completamente, sem que me presintam, o tapamento que serve de fundo ao armario, passarei eu em vez de expedir a carta. No caso contrario, apenas se abrir aquella porta, precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e abrirei o meu caminho como todo o homem de bem que em sua consciencia delibera passar por cima de meia duzia de miseraveis. Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos ámanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas depois não souberes de mim, escreve a Frederico Friedlann, _posta restante, Lisboa_. Elle te procurará no logar que indicares e te dirá onde estou.--Adeus.--_F_ * * * * * Nota.--Juntamente com a carta publicada achavam-se as seguintes folhas de papel escriptas pela mesma lettra das cartas do medico, anteriormente publicadas n'esta folha: F... não appareceu. No mesmo dia, dois dias e tres dias depois de haver recebido a extensa carta que elle me dirigiu e de que enviei logo a primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos os meios ter noticias d'elle. Foram inuteis todos os esforços que empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao correio e soube que ainda ali se achava a carta que lhe dirigi e na qual lhe aprasava uma entrevista. Estou vivamente inquieto, sobresaltado, cuidadoso. F... é um homem arrebatado, irascivel, pundonoroso até o delirio. Receio do seu caracter e da violencia das suas determinações uma explosão que teria podido talvez ser-lhe fatal. Apresso-me porém a declarar-lhe, senhor redactor, que discordo completamente da opinião d'elle emquanto á qualidade moral das pessoas com quem estivemos reunidos na casa onde encontrámos o cadaver. O mascarado alto, com quem tive occasião de fallar por mais tempo, não póde ser uma assassino cobarde. F... demorou-se pouco tempo comnosco, não pôde attentar nos individuos que o rodeavam. Ouviu apenas uma phrase, que para mim proprio é ainda inexplicavel e terrivel, e baseou n'ella a sua indignação e o seu odio. Eu tratei apenas com um d'esses homens--o mais alto--mas com este fallei incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe os movimentos da physionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos, scintillantes. Ouvia-lhe a voz metallica, pura, clara, vibrante, obedecendo naturalmente, na modulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo dos sentimentos. Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos incidentes que acompanharam o inquerito de A. M. C., escutei-lhe sempre com interesse, com sympathia, algumas vezes com admiração, a palavra sincera, facil, despresumida, espontanea, original, pittoresca sem litteratismo, eloquente sem propositos oratorios,--limpido espelho de uma alma energica, integra, perspicaz e sensivel. Tinha arrebatamentos enthusiasticos, indignações convictas, concentrações melancolicas, que se via provirem d'esse fundo de lagrimas, que todas as naturezas priveligiadamente boas e honestas têem no intimo da sua essencia. Pareceu-me finalmente um coração leal e honrado, e não é facil enganar-se por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquella em que nos achámos, um homem com a minha experiencia do mundo e a minha pratica dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principaes considerações que do principio logo me impediram de tornar publico o nome do meu amigo violentamente retido em carcere privado. F... é um homem conhecido, é quasi um homem celebre; em Lisboa ninguem ha que não conheça o seu nome entre os escriptores mais applaudidos, ninguem que não distinga a sua figura altiva, esmerada, picante, entre os vultos extremamente uniformes dos passeios, das salas e dos theatros. Se eu communicasse á policia o desapparecimento do meu amigo, é quasi seguro que ella encontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto a denunciar simultaneamente como criminosos o mascarado alto e os seus companheiros que eu todavia considero innocentes? A carta de F..., apesar da revelação que encerra sobre o desapparecimento das 2:300 libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho. Na carta de F... encontra-se o seguinte periodo: * * * * * «Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio: bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.» Ora o relogio a que n'estas linhas se allude, se bem lembrado está, é exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse periodico, o mesmo que usava o mascarado que ia sentado defronte de mim na carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fóra da algibeira do collete, suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F... ao quarto em que elle se acha preso, é effectivamente um amigo d'elle, intimo e particular. Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebrecerão talvez a minha vida com uma sombra eterna, denunciar á policia uma particularidade, um nome, uma circumstancia positiva, que a ponha no encalço d'este crime e no descobrimento das pessoas, innocentes ou culpadas, que circulam fatalmente em torno d'elle? As mesmas noticias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anonymo, me vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a severidade incorruptivel, despreocupada e fria dos homens de bem, uma traição aos imprescriptiveis deveres da amisade, um aggravo á inviolabilidade do sigillo, uma offensa a esse culto intimo que se baseia na delicadeza, no melindre, no primor,--culto que para as almas honradas constitue uma parte dos principios supremos da primeira das religiões--a religião do caracter? Mas podia tambem calar-me? ficar mudo, impassivel, inerte, neutro, diante d'este successo obscuro mas tremendo? Podia acaso acceitar na impassibilidade e no silencio a responsabilidade terrivel de um homicidio tenebroso, do qual sou eu a unica testemunha com iniciativa, com liberdade, com faculdade de acção?... Decidam-no as pessoas que por um momento quizerem imaginar-se nas circumstancias excepcionaes e unicas em que eu estou. Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstaculos em que me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um unico momento que perder, uma só cousa me occorreu, possivel, clara, solvente: publicar anonymamente o que me succedera, entregar por este modo á sociedade a historia da minha situação e esperar dos outros, do publico, a solução do problema que eu não sabia resolver por mim. Nem uma palavra de conselho, de analyse, de critica! Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de liberdade. Não posso ficar eternamente immovel, como um condemnado, com o pesado fuzil de um segredo soldado a um pé. Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei partido para fóra do paiz. As ambulancias do exercito francez precisam de cirurgiões. Vou alistar-me como facultativo. O meu paiz dispensa-me, e eu, como todo o homem na presença dos infortunios irremediaveis, sinto a doce necessidade de ser util. Fica sabendo o meu destino. Um dia saberá o meu nome. Despedindo-me--seguramente para sempre--dos seus leitores, cuja attenção tenho largamente prendido com a narrativa d'este caso lugubre, seja-me permittido acrescentar uma derradeira palavra: A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por extenso n'esta pagina, A. M. C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo quanto em contrario quiz allegar o amigo d'elle que sob a letra Z. veiu defendel-o n'este mesmo logar, A. M. C., quaesquer que sejam as causas que o levaram a intervir nas circumstancias que rodeiam o crime, conhece-o interiormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar. Se estas linhas chegarem aos olhos d'esse moço, uma coisa lhe peço em nome da sua honra e da sua dignidade, em nome da honra e da dignidade das pessoas envolvidas em tão extranho successo. Procure no correio uma carta que lhe dirijo n'esta mesma data. N'essa carta verá quem eu sou, onde poderá enviar as suas cartas ou vêr-me e fallar-me pessoalmente. Se a sua idade, se as condições da sua posição na sociedade, se os interesses da sua carreira, a tranquillidade da sua familia, a incompetencia da sua auctoridade, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este acontecimento até á ultima das suas consequencias, arrancando a um tal mysterio a secreta verdade que elle envolve, dirija-se a mim, collaboraremos juntos n'essa obra, que tenho por meritoria e honrada. Eu acceitarei clara e abertamente para todas as consequencias e para todos os effeitos a responsabilidade que d'ahi provenha, e terei meio de salvar o seu nome, a sua pessoa e a sua honra de qualquer suspeita que o ensombre ou o macule. Emquanto a ti, meu querido e meu honrado F..., não creio que sejas victima de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu unico perigo está, a meu vêr, no teu impaciente melindre, nos teus delicados escrupulos, no teu valor, finalmente, e no teu brio. Que te matassem cobardemente no carcere clandestino que ha pouco tempo ainda tu illuminavas com a tua pachorra e a tua alegria, não póde ser. Que a esta hora tenhas sido obrigado a jogar a tua vida trocando em desaggravo de honra uma estocada ou um tiro com algum dos teus mysteriosos commensaes, isso acho logico, e é possivel. Punge-me não sei que vago e triste presentimento... Meu pobre F...! Se estará destinado que não nos tornemos a vêr! Se o dia fatal em que regressámos ambos de Cintra, descuidados, contentes, suspirando com as nossas alegrias, sorrindo com os nossos infortunios, terá acaso de ser o ultimo d'essa doce convivencia que por tanto tempo nos juntou!... E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam envolvidos no turbilhão implacavel e terrivel da crua solidariedade humana! Que remedio?! Se a vida é isto, aceitemol-a corajosamente como ella é, e ávante! aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz! +Segunda carta de Z+ Senhor redactor.--Acabo de vêr publicada na sua folha de hoje uma carta em que o doutor..., com uma insistencia malevola, torna a inculcar, como cumplice no attentado de que elle se fez o historiador voluntario, o meu pobre amigo A. M. C. Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia com o auxílio unico da minha coragem e da minha astucia, pôr-me ao serviço da curiosidade de todos, procurando penetrar e desfiar a tenebrosa historia que ha mais d'uma semana, vem todos os dias successivamente, no folhetim do seu jornal, apresentar deante d'um publico attonito um quadro mysterioso e lugubre. Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatorios, visitas aos logares, tudo foi inutil. A historia perde-se cada vez mais n'uma nevoa que a afoga: e o meu pobre M. C. lá está ainda--não sei se n'um retiro voluntario, se n'uma sequestração forçada. Na impossibilidade de descobrir, physicamente, por essas ruas, a verdade, resolvi ir buscal-a ás mesmas cartas do doutor. Analysei-as, decompul-as palavra por palavra. E sem contar os processos, apresento os resultados. O _Mysterio da estrada de Cintra_ é uma invenção: não uma invenção litteraria, como ao principio suppuz, mas uma invenção criminosa, com um fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos d'esta invenção: Ha um crime; é indubitavel; é claro. Um dos cumplices d'este crime é o doutor ***. Elle está envolvido no anonymo: não tenho por isso duvida em apresentar esta accusação formal. Se o seu nome fosse conhecido, se as suas cartas estivessem assignadas, eu, só com provas judiciarias, me atreveria a escrever esta grave affirmativa. Sim, o doutor *** é o cumplice d'um crime: o meu pobre amigo M. C. é um desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer recahir as suspeitas que se possam ter já, e as provas que mais tarde venham a juntar-se. Este crime, que existe, apparece-nos envolvido nas roupas litterarias d'um mysterio de theatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos. É possivel que n'uma cidade pequena como Lisboa, em que todos são visinhos, amigos de _tu_, e parentes, o doutor *** que parece ser um homem notado na sociedade, vivendo n'ella, frequentando as suas salas e os seus theatros, não conhecesse nenhum d'estes quatro mascarados, que pelas suas indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás, escutam a mesma musica nos mesmos salões e nos mesmos theatros? Uma mascara de velludo preto não basta para disfarçar um conhecido. O seu cabello, o seu andar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as suas mãos, a sua _toillete_, são bastantes para revelar, trahir o individuo. O doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão galantes, tão distinctos, governam tão bem as suas parelhas, fallam tão bem as suas linguas, pareciam tão ricos, e o doutor *** um medico, um homem relacionado,